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sábado, 27 de julho de 2024

#019 | Breve História dos Tratores em Ucraniano, de Marina Lewycka

Autor: Marina Lewycka (Inglaterra)
Título Original: A Short History of Tractors in Ukrainian (2005)
Editora: Cultura Editora
Edição: 1ª Edição, Novembro 2023 (384 págs.)
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Há alguns anos, este título chamou a minha atenção, mas, por algum motivo, não o adquiri. Recentemente, saiu uma nova edição e, ao passear por uma Fnac desta vida, reencontrei-o num expositor. Reli a sinopse e, na primeira página, deparei-me com a seguinte citação:

“Como Romeu e Julieta descobriram à sua
 custa, o casamento nunca é uma simples
 questão de duas pessoas se apaixonarem
 tem que ver com famílias.”

Atendendo ao título e a esta premissa, achei que me iria deparar com um drama familiar escrito num tom algo cómico ou talvez nonsense, ao estilo de “O centenário que fugiu pela janela e desapareceu”, de Jonas Jonasson. Estando a precisar de leveza na minha vida, adquiri o livro.
Não podia estar mais errada…


Sinopse

Neste livro é-nos contada a história de Nadezhda e Vera, duas irmãs ucranianas que cresceram com os pais – Nikolai e Ludmilla – refugiados da Guerra, em Inglaterra, mas que nunca se deram bem. Quando a mãe morre, rompem definitivamente os laços.

Dois anos depois, quando o pai, um velho senhor de 86 anos, resolve voltar a casar com a jovem Valentina, que não tem nem metade da sua idade, as duas irmãs veem-se forçadas a reencontrar-se e a unir esforços, para impedir este casamento.

Valentina é também ucraniana, divorciada, tem um filho adolescente e é-nos apresentada como uma personagem estereotípica: loira, com seios divinais bottecellianos, sempre de salto, com roupas exuberantes cor-de-rosa que, na minha cabeça culminaram em alguém parecida com a Stifler's Mom.

Enquanto Nadezhda acredita que esta mulher possa tornar-se uma companhia para o seu velho pai, fica claro para Vera que se trata de uma oportunista em busca de dinheiro e da nacionalidade Inglesa.

O pai, por sua vez, envelhecido e senil – e longe de ser tão rico quanto Valentina julga —, deixa-se seduzir pela juventude da namorada, acreditando que esta o ama de verdade, fazendo-lhe juras de amor eterno.

A expectativa e a minha experiência de leitura

Com blurbs como “Original e Hilariante” ou “Perspicaz, leve e incrivelmente divertido” Uma Breve História dos Tratores em Ucraniano é anunciado como uma versão extremamente cómica de um drama familiar. 

Contudo, ao longo da narrativa percebemos que a história tem mais camadas e não é assim tão cómica.
A história é-nos contada tendo por base 3 eixos narrativos: 

No primeiro, conhecemos o momento presente desta família com os seus dramas e “peripécias”, no segundo ficamos a conhecer a história de Nikolai e Ludmilla, originários da Ucrânia e as dificuldades por eles vividas. Por fim, temos Uma Breve História dos Tratores em Ucraniano, um manuscrito desenvolvido por Nikolai, num reviver dos seus tempos de engenheiro, que se assume como um tratado sobre os tratores ucranianos e a importância que estes tiveram para o mundo. 

Em relação a este terceiro arco narrativo, dos tratores, serviu para deixar algumas curiosidades sobre tratores ucranianos, para dar título à história e pouco mais. Lembrando que, na época, 80% da população ucraniana vivia no campo, é significativo que as pessoas admirassem o desenvolvimento dos tratores, contudo, não achei que efetivamente acrescentasse nada à narrativa, chegando a tornar-se aborrecido em alguns momentos. Tem o efeito de mostrar que Nikolai está a realizar o seu sonho de escrever, tem o efeito de demonstrar a importância da agricultura e dos tratores, ótimo! Não precisava ser tão extenso.

Quanto ao momento passado, este é-nos narrado de forma entrecortada, normalmente sendo Vera a contar à irmã sobre o tempo da guerra, dos campos de concentração, e do regime totalitário de Estaline. 
Compreendemos aqui que há uma diferença de idades entre as duas, sendo Vera uma bebé da guerra e Nadezhda uma bebé da paz. Percebe-se um rancor entre as irmãs, a narrativa torna-se, nestes momentos, mais pesada (contam-se alguns momentos bem difíceis), mas que, ainda assim, não servem para dar uma estrutura para as personagens no momento presente. Como se o passado destas pessoas de nada servisse para o que elas são no momento atual. A exceção será talvez o facto de Nadezhda se declarar socialista, o que enfurece o pai e a irmã.
Por outro lado, penso que a única personagem em que o passado teria deixado marcas mais permanentes, teria sido em Ludmilla, uma vez que, pela fome vivida, se menciona várias vezes como ela cuidava da casa e do jardim, cultivando e plantando frutas e legumes, que obsessivamente guardava em conservas.
Estes flashbacks terminam frequentemente de forma abrupta, com Vera a interromper o discurso com uma postura vitimista do género “nem queiras saber o que passamos” ou “Não mexas no passado”, como que a deixar, de forma claramente intencional e repetitiva, um gancho, para manter a nossa curiosidade (e a de Nadezhda) vivas.

Relativamente ao momento presente, como expectável, Valentina é extremamente descuidada com a casa e com o dinheiro, deixa tudo apodrecer, vive à base de comidas congeladas, exige marcas muito específicas para as coisas que força Nikolai a fornecer-lhe, incluindo três veículos e um aspirador específico.
O que poderia ser descrito como “caricato” torna-se excessivo e, ao longo da narrativa vamos percebendo sinais de abuso emocional, físico e verbal da Valentina para com o idoso, o que me irritou verdadeiramente, uma vez que Nikolai, completamente cego pela paixão, pelo seu desejo de ter um filho e a sua aparente obrigação de salvar Valentina do seu país, continua a proclamar o seu amor por ela, demonstrando, não obstante, medo de que ela o mate.

Os momentos de humilhação a que Valentina submete Nikolai tornam-se desumanos, e estas cenas desenrolam-se por muito mais tempo do que o necessário, até as irmãs procurarem ajuda para anular o casamento. Isto, além de me irritar, fez com que a leitura deste livro se tornasse cada vez mais arrastada e preguiçosa uma vez que deixou de prender a minha atenção. Deixei de querer saber destas pessoas e queria mais é que todos se danassem! 
Não obstante, insisti na leitura…


Quanto à escrita, além de ser pobre, assente em diálogos e chamadas telefónicas, apresentou também um ou outro aspeto que me incomodou. Por exemplo, a autora recorre a piadas repetitivas, que acabam por se tornar cansativas. Por exemplo, sabemos que Nadezhda é professora de sociologia, mas a irmã insiste em chama-la “assistente social”, desvalorizando a sua profissão. Teria piada uma vez, ou duas... a partir da quinta, já não se aguenta.
Outro aspeto que me intrigou, foi ao longo dos diálogos aparecerem os pensamentos de Nadezhda entre parêntesis, afirmando como o outro se sente ou o que quer dizer… Como assim? Se a narração é em primeira pessoa, como é que a personagem tem acesso aos pensamentos do outro? Achei um recurso muito básico, numa tentativa de dar profundidade a diálogos que não a têm.

Conclusão

No que diz respeito aos livros sobre imigração, este não traz nada de novo. A premissa até pode ser original e interessante, mas a execução, a meu ver, falhou.

A única coisa potencialmente interessante sobre este livro, é a mini reflexão sobre como Nadezhda, com ideais declaradamente socialista-liberais e feministas, põe a sua visão de lado quando vê uma mulher, imigrante, ameaçar os seus interesses pessoais
Esta ideia pode passar despercebida no livro, no entanto, estas contradições, foram um dos aspetos que me chamou a atenção.

❤

sábado, 21 de setembro de 2019

#018 | A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano

Autor: Paolo Giordano (Itália)
Título Original: La solitudine dei numeri primi (2008)
Editora: Círculo de Leitores
Edição: 1ª Edição, Janeiro 2009 (257 págs.)
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Hoje vou falar de um dos mais antigos ‘não lidos’ da minha estante: A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano. Estava a morar na minha estante, por ler (e a ganhar pó), desde o início de 2009. No entanto, só agora me apeteceu.

Enredo

Este livro conta-nos a história de vida de duas pessoas: Alice e Mattia.
Em capítulos alternados, vamos conhecendo a infância destas pessoas, sendo-nos apresentado, na vida de cada um, um episódio devastador que os deixa física e emocionalmente traumatizados, condicionando os seus desenvolvimento.  Alice sofre um acidente que a deixa com sequelas permanentes e Mattia, num momento de egoísmo, abandona a sua irmã gémea – Michela – que desaparece sem deixar rasto.

Num determinado ponto, na adolescência, a vida dos dois cruza-se, e iniciam uma relação de amizade invulgar, improvável, assente nas singularidades de cada um.
Ambos se sentem socialmente inadequados, distantes e estranhos, pelo que se revêm na solidão do outro, mantendo-se nunca completamente íntimos, mas nunca completamente afastados.

São aquilo que Mattia define como números primos gémeos, solitários, mas especiais, “quase próximos” sem “se tocarem realmente…”, assumindo-se o conceito matemático como uma metáfora para contar a história de duas almas perdidas.

“Ela e Mattia estavam unidos por um fio elástico e invisível, sepultado debaixo de um monte de coisas de pouca importância, um fio que podia existir apenas entre duas pessoascomo eles: duas pessoas que haviam reconhecido uma na outra a própria solidão” (pp. 238-239).

A matemática é, aliás, relevante ao longo do desenvolvimento da história de Mattia, apresentando-se os números como um refúgio para o mesmo.

A história caminha até à idade adulta de ambos, permeada por silêncios e ausências, que completam o que fica por dizer entre ambos. Percebemos que os percursos de vida os levam por diferentes caminhos, embora o fio elástico e invisível nunca se quebre.

É um livro sobre escolhas e oportunidades perdidas e de como, por vezes, um acontecimento apenas, pode mudar o curso de uma vida.


A minha opinião

Num primeiro ponto, devo referir que gostei da escrita do autor.
O autor apresenta uma escrita envolvente, apresentada em capítulos curtos, que convidam à leitura, alternando entre a perspetiva de Alice e a de Mattia. Achei interessante o modo como o autor alterna entre uma visão masculina e feminina, mantendo-se verosímil.

O romance retrata dramas reais e atuais da nossa sociedade como sejam as crises e dramas da adolescência (abordando temas fortes como o bullying, os transtornos alimentares e a automutilação), bem como o medo de viver e de amar, a sensação de culpa e o remorso.

Contudo, terminei o livro mais insatisfeita do que pensativa.
Estava a gostar da leitura, do seu toque incomum, sombrio e exigente, mas… não há recompensa pelo meu tempo gasto com ele.

O livro tem um final em aberto (o que não é necessariamente mau), mas existem demasiadas pontas soltas ao longo do livro. Ao longo dos capítulos, e atendendo a alguns saltos temporais, existem pontos que ficam em aberto, deixando a expectativa de que se resolvam mais adiante, ao longo da narrativa. Contudo, isso não acontece.

Embora nem todos estes aspetos sejam essenciais para a história, outros mereciam atenção e desenvolvimento. Um exemplo flagrante é o da jovem que aparece no hospital: era mesmo Michela?

No final, Giordano usa o vazio e a falta de resolução como recurso, deixando, como referi, mais uma sensação de insatisfação do que um estímulo à reflexão.

❤

Sobre a tradução, e lembrando que esta é uma edição de 2009, enervou-me um pouco o uso da expressão “ao invés”, em contextos que se encaixava perfeitamente um “contudo” ou “por outro lado”. O uso da expressão tornou-se tão repetitivo que se tornou claro ser um maneirismo do tradutor.

sábado, 24 de março de 2018

#017 | A Porta, de Magda Szabó

Autor: Magda Szabó (Húngria)
Título Original: Az Ajtó (1987)
Editora: Cavalo de Ferro
Edição: 2ª Edição, Setembro 2017 (240 págs.)
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Há livros com os quais temos uma relação difícil. Para mim, este foi um deles.

Sobre a autora

Magda Szabó é uma poetisa, ensaísta, memorialista e romancista húngara, nascida em Debrecen, no seio de uma família protestante. 

Estudou Latim e Húngaro na Universidade da sua cidade natal e trabalhou como professora durante o período de ocupação alemã e soviética do país. 

Publicou dois livros de poesia sendo galardoada com o Prémio Baumgartner, em 1949. Contudo, o prémio foi-lhe retirado logo de seguida por razões políticas.

Esteve impedida de publicar durante vários anos, alvo de censura, retomando carreira literária em 1958 com o romance Freskó (Fresco). No entanto, só com a publicação do romance Az ajtó (A Porta), em 1987, alcançou a projeção internacional.

Falecida em novembro de 2007, Magda Szabó tem a sua obra traduzida para mais de 30 línguas e foi distinguida com inúmeros prémios internacionais.


Sobre a obra

Este romance, situado em Budapeste no pós-guerra, conta a história de Magda, a narradora, e Emerence, a sua mulher-a-dias.

Magda é escritora e vê, no início do romance, levantada a interdição do regime comunista que até então a impedia de publicar, tornando-se escritora a tempo inteiro. 

Magda muda-se então com o seu marido, um académico, para uma nova casa e sente necessidade contratar uma mulher-a-dias, sendo-lhe recomendada Emerence. 

Emerence, descrita como uma ‘velha senhora’ é uma camponesa, praticamente analfabeta, mas dona de uma energia interminável, que trabalha como porteira e que cuida de várias casas no bairro. Emerence não é uma empregada comum e estabelece, desde logo, as regras em que se alicerça a relação com os patrões, definindo os seus próprios horários e atividades.

Emerence procura ser uma pessoa reservada, mostrando-se sempre muito discreta com o seu passado e vida privada. Além disso, foge da política, despreza a religião e considera inútil qualquer um que se dedique a um trabalho que não exija esforço físico (como seja o caso de Magda e do seu marido), considerando que não é um verdadeiro trabalho. 

Como qualquer empregada doméstica, Emerence tem total acesso à privacidade dos patrões, quer de Magda, quer dos restantes, entrando nas suas casas quando quer. Limpa, cozinha, arruma e sai quando termina o serviço… No entanto, não permite que ninguém tenha acesso à sua própria casa. Emerence nunca abre a porta e as visitas são sempre recebidas no alpendre. Tudo dá a entender que Emerence esconde um segredo…

Este perfil, algo misterioso, leva a que a velha senhora seja, entre os membros da comunidade, alvo de muitos rumores sobre o seu passado e antecedentes. 

Pelos perfis das duas personagens, e face a backgrounds tão diferentes, percebemos que não será fácil o estabelecimento de uma relação próxima. Contudo, por algum motivo, Magda está obcecada com Emerence, por conseguir penetrar nas suas várias camadas e conseguir compreendê-la. 

A relação das duas começa a tornar-se mais próxima, mas também mais tóxica, quase abusiva. Emerence começa a tomar decisões em relação à casa e à vida de Magda, que se revolta, mas que logo pede perdão, tornando-se cada vez mais suscetível ao humor e birras de Emerence.

Se por um lado, parece que Magda está constantemente à procura do amor de Emerence, ou de a conquistar, por outro, Magda é a patroa! E socorre-se disso para, de vez em quando, picar a empregada, mostrar-lhe que manda e que também tem poder. 

Mais do que uma história de amizade, parece que estamos perante um braço de ferro, uma luta de egos, em que as duas protagonistas são igualmente fortes, mas igualmente voláteis.

Lentamente, ao longo da história, Emerence vai se abrindo e vai mostrando vislumbres da sua história de vida, cheia de vulnerabilidades que podem justificar (ou não) os seus comportamentos presentes.

Num determinado ponto da história, Magda tem que tomar uma decisão: abrir ou não a porta. E, na sua perspectiva, qualquer uma das alternativas será considerada uma traição a Emerence, levantando-se questões de como preservar a dignidade de outro ser humano.


A minha opinião

Então, não é muito fácil para mim ‘falar’ sobre este livro…

O significado simbólico do título é compartilhado pela porta física de Emerence para sua casa, mas também para a barreira que ela cria para o seu eu interior e, no meu caso, na barreira que me impediu de me aproximar destas personagens.

Este foi, para mim, um livro muito diferente de qualquer outro que já li. Magda Szabó constrói um livro que nos põe à prova, e que de alguma forma nos obriga a encarar e a refletir sobre a relação com o outro. 

Entendo que tendemos a ser mais duros com aqueles que nos são próximos, e faz sentido, para mim, pensar neste tipo de relação em casos de mãe-filha, por exemplo. No entanto, no caso de uma relação patroa-empregada, e ainda por cima quando as duas se conheceram numa fase já mais madura da vida, parece-me algo pouco convincente.

O livro começa como promissor, ficamos presos ao ‘mistério’ que envolve Emerence, no entanto, quanto mais avançava na leitura mais me ia frustrando com as ações das protagonistas e com a natureza repetitiva do romance, que se foi tornando arrastado e cansativo.

Não consegui relacionar-me com as birras das protagonistas e não me consegui afeiçoar a nenhuma das duas.

Por um lado, Emerence quer que respeitem a sua privacidade, mas não demonstra respeito por ninguém: muda a decoração da casa de Magda, contraria as decisões tomadas pela patroa, enfim…

Já Magda, por sua vez, tem uma postura egoísta, torna tudo num assunto relativo a si e assume que tudo que acontece é, de alguma forma, por sua causa. 

Li, numa reflexão sobre a obra, que poderíamos pensar neste livro como um romance sobre a culpa quando, apesar das boas intenções, as coisas não correm pelo melhor. Não obstante, não consigo pensar na Magda como uma pessoa com “boas intenções”. Num determinado ponto, quando a Emerence está há dias sem sair de casa, Magda dirige-se lá a oferecer ajuda, mas a pensar algo como “espero que ela não precise de nada, tenho mais que fazer”, ou seja, a culpa, é fundamentada.

Em suma, este é um livro complexo, que nos levanta vários questionamentos pertinentes. Contudo, não consegui afeiçoar-me a nenhuma das personagens e, a determinado ponto, perdi o interesse sobre o que iria acontecer às mesmas.

[making of, porque o Draco também quis aparecer ]

❤


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

#016 | Harry Potter and the Cursed Child, de J.K. Rowling, John Tiffany, Jack Thorne

Autor: J.K. Rowling, John Tiffany, Jack Thorne (Inglaterra)
Título Original: Harry Potter and the Cursed Child
Editora:  Little Brown
Edição: 1ª Edição, Julho 2016 (352 págs.)
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Hoje venho ‘conversar’ um bocadinho sobre o mais recente livro da saga Harry Potter – Harry Potter and the Cursed Child.

Primeiramente, deixem-me dizer: eu gostei do livro. E acho necessário começar por este esclarecimento por todas as ambiguidades e opiniões divergentes que este livro tem criado. Por isso, sim, eu gostei do livro.
Reconheço-lhe algumas coisinhas menos boas, mas, no geral, foram muito mais as coisas de que gostei do que as que não gostei.

Vamos lá então…

Sobre a estrutura do livro

Dezanove anos depois do lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofal, estreia, em Londres, a peça de teatro Harry Potter and the Cursed Child (Harry Potter e a Criança Amaldiçoada). Esta peça foi desenvolvida com base num argumento da J.K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne, sendo adaptada aos palcos por Jack Thorne.

A estreia ocorreu no dia 30 de Julho de 2016 no Palace Theatre, sendo, o livro homónimo, lançado ao primeiro minuto do dia 31 de Julho, data celebrada por serem os aniversários de J.K. Rowling e de Harry Potter (personagem).

Interessa por isso lembrar que este livro é o roteiro da peça. Não é um romance, não é mais um livro igual aos outros da saga.
Isto importa na medida em que, tratando-se de uma peça de teatro, a ambientação é mais reduzida, as cenas não são tão descritivas, não temos acesso direto aos pensamentos e emoções dos personagens, centrando-se o livro mais no diálogo entre os mesmos e em pequenos apontamentos sobre o enquadramento da cena.
O resto do recheio da peça – como cenário, iluminação, banda sonora, linguagem corporal, figurinos – ficará nas mãos dos encenadores, dos atores ou, neste caso, na nossa imaginação…

Por não estar habituada a ler peças de teatro, confesso que, no início, tive alguma dificuldade em arrancar com a leitura, mas, idas as primeiras páginas, comecei a entrar no ambiente e a leitura fluiu. Li-o numa noite (porque não consegui largar) e senti necessidade de, de imediato, registar as minhas impressões sobre ele.


Sobre a história (enxuto e sem spoilers)

O enredo do livro passa-se dezanove anos depois do fim do sétimo livro – Harry Potter e os Talismãs da Morte – sendo, a primeira cena deste Cursed Child quase uma continuação do epílogo do 7º livro da saga.
A cena na Plataforma 9¾, onde a geração Harry Potter, agora adulta, se despede dos seus filhos que se preparam para entrar em Hogwarts. 

O personagem principal da história é Albus – segundo filho de Harry e Ginny – que, nesta primeira cena se prepara para o seu primeiro ano em Hogwarts, sendo acompanhado por James –  o irmão mais velho, e Rose – a prima, filha de Ron e Hermione.

Logo no início percebemos que, para Albus, o legado de viver sendo um Potter é muito pesado: ele não se identifica com o heroísmo do pai, incomoda-se com os olhares que a família recebe e receia não corresponder às espectativas que nele são depositadas… afinal, ele é um Potter!

Por outro lado, percebemos que Rose, que por ser uma Granger-Weasley, filha da Ministra da Magia (sim, a Hermione é Ministra da Magia) se considera superior aos demais, achando que pode e que deve escolher bem os amigos, não se envolvendo com qualquer um. Confesso que achei a sua postura um pouco arrogante e um pouco snob, mas tudo bem…

Já no Hogwarts Express, os primos conhecem, enquanto procuram compartimento, Scorpius Malfoy, filho de Draco. Embora Rose não se queira ligar ele, o jovem revela-se simpático e Albus acaba por passar a viagem com ele. No decorrer desta cena, é-nos contado que Scorpius, por ser vítima de um determinado boato, se sente um pouco marginalizado e que, também ele, se sente desconfortável com o peso da sua herança familiar. Isto faz com que os dois jovens se identifiquem e logo aí nasça uma sincera amizade.

Os primeiros anos passam em poucas cenas e ficamos a saber que Albus é selecionado para os Slytherin. Além disso, percebemos que Albus não tem particular talento para o Quidditch, nem para nenhuma matéria em concreto, o que aumenta a sua sensação de estranheza em relação à família.

Os anos vão passando e avançamos até um ponto em que, ouvindo uma conversa, em casa, Albus descobre uma espécie de injustiça cometida na juventude do seu pai e resolve, com a ajuda de Scorpius, resolver a situação.

Acompanhamos assim a história destes dois adolescentes, numa tentativa de provar aos pais (e a si mesmos) que também são capazes de grandes feitos.


Mais sobre a história

Resumidamente, o que Albus e Scorpius resolvem fazer, é voltar no tempo e salvar Cedric Diggory, morto por Voldemort durante o Torneio dos Três Feiticeiros, ocorrido no 4º ano de Harry em Hogwarts.
Esta decisão decorre de uma conversa que Albus ouve entre Harry e Amos Diggory – o pai de Cedric – em que relembram como a morte do mesmo foi desnecessária.

Sabendo que, recentemente, o Ministério da Magia apreendeu um vira-tempo ilegal, Albus sente que esta é a sua oportunidade de fazer algo bom e provar ao pai a sua bravura.

Para conseguir executar esse plano, Albus e Scorpius contam com a ajuda de Delphi, uma jovem adulta, que se apresenta como sobrinha de Amos e que quer, no que lhe for possível, ajudá-los a salvar o primo.

Os jovens lá conseguem, de alguma forma, roubar o vira-tempo do Ministério da Magia e é interessante acompanhar esta aventura, especialmente os efeitos provocados pelas alterações no passado.

Quem está acostumado a filmes ou livros com viagens no tempo sabe que, a mais pequena interferência no passado pode alterar significativamente o futuro e por isso, sem aprofundar muito as voltas que são dadas, num determinado momento, e depois de meterem os pés pelas mãos, os jovens deparam-se com alterações tão significativas no rumo da história que percebem que a única solução possível é cancelar todas as suas ações e interferências no passado.
Para isso, contam com a ajuda de Hermione e Ron que, numa realidade paralela onde as trevas imperam, vivem refugiados, contando apenas com a ajuda de… Snape.

Quando regressam ao tempo presente, tendo anulado todas as interferências no tempo, os amigos contam a Delphie que, numa tentativa de salvar Diggory, este acabou por se tornar devorador da morte e, devido a uma cadeia de eventos daí decorrente, Voldemort acaba por vencer a Batalha de Hogwarts, matando Harry (e inviabilizando, desta maneira, a existência do próprio Albus).

A partir desse momento, e sabendo dessa possibilidade, Delphie insiste para, a qualquer custo, regressarem ao passado e ativar essa cadeia de eventos. Perante um Albus e um Scorpius estupefactos, a verdadeira identidade de Delphie é-nos revelada, bem como quais as suas motivações para trazer de volta o Senhor das Trevas.

Resta agora saber se os amigos vão conseguir evitar este problema…


Reflexões e Considerações finais

♥ Para quem já leu o livro (ou para quem não tem medo de spoilers) este último aspeto – da identidade da Delphie que se revela, afinal, filha de Voldemort –  foi o ponto da história que eu achei mais desnecessário… Para mi, bastava a Delphie ser uma personagem má e pronto! Não havia necessidade de criar-lhe um passado todo rocambolesco que, a meu ver, nem é completamente credível.
Ok, percebo a perspetiva que, de certo modo, um filho é uma forma de imortalidade e que faria sentido Voldemort assegurar a sua linhagem, mas, ainda assim, acho difícil imaginar o seu envolvimento com Bellatrix (que na história, é a mãe de Delphi).

Para mim, a história das voltas no tempo, das implicações que isso traz e da forma como conseguiram corrigir o passado, seria o suficiente para uma grande história. Fizeram asneira, conseguiram 'salvar o dia' e aprenderam a lição, ponto.

♥ Outro ponto que me fez refletir, foi a relação de amizade de Albus e Scorpius. Fui só eu que achei que, a determinado ponto, esta se iria revelar mais do que uma amizade?

Lembro-me de, há alguns anos, se falar da J. K. ter revelado que Dumbledore seria homossexual, mas a verdade é que esse tema nunca foi transposto para os livros (ou para os filmes…). Sendo um tema bastante atual, achei que, nesta peça, poderia ser um tema a abordar, principalmente depois de, com a leitura, nos ser lembrado o tempo todo que cada um é a pessoa mais importante para o outro (com direito a um Always, e tudo!) e, a dado momento, perceberem-se alguns contornos mais românticos na amizade dos dois adolescentes. Refiro-me, por exemplo, ao momento em que, depois de serem proibidos de se ver, os jovens se encontram numa escada a ficam a contemplar-se…

O que me chateou não foi exatamente o facto desse tema não ser abordado, ok, mas sim o facto de, no final, percebermos que afinal o Scorpius tem uma quedinha pela Rose. What? Como assim? Ela quase não aparece ao longo da peça, na cena em que aparece... é maldosa com ele, mas afinal o Scorpius gosta dela… achei muito clichézinho de comédia romântica, muito uma tentativa de juntar os pares óbvios, mas (mais uma vez!) tudo bem.

A meu ver, neste ponto teria sido preferível não fazer menção a crush nenhuma e deixar a questão em aberto para que do leitor (e o público) pudesse interpretar livremente o relacionamento dos dois.

♥ O que eu mais gostei

Pontos positivos.. gostei muito de ver o desenvolvimento dos adultos da história, e de nos ser mostrado que, mesmo sendo feiticeiros poderosíssimos, e mesmo tendo vivido um ‘felizes para sempre’ a vida continua e os problemas do dia-a-dia são iguais aos de qualquer outra pessoa.
Um exemplo disso é a relação difícil que Harry tem com o filho Albus e a forma como ele assume que, por não ter tido um pai, tem dificuldade em lidar com esse papel. Achei o tema muito real e que humanizou mais os personagens.

Também gostei muito de ver, por outro lado, como mesmo depois de adultos, alguns traços dos personagens se mantiveram. Ron e Draco, com as suas saídas irónicas e cómicas, foram os meus favoritos, embora tenha ficado muito surpreendida com o desenvolvimento de Ginny. Tornou-se uma mulher muito madura, responsável, com bastante jogo de cintura para lidar com a relação do marido com o filho, sabendo bem quando deve ou não interferir.

A cena ocorrida no segundo universo paralelo, em que Ron e Hermione, com o apoio de Snape ajudam Scorpius a resolver o problema da alteração no tempo foi, para mim, das mais comoventes e vai despertar, sem dúvida, muita nostalgia nos fans da série.

Por outro lado, gostei também do facto de, por muitas voltas que a história dê, Neville Longbottom continuar a ser fundamental para a salvação do mundo bruxo.

Outro ponto de que gostei muito, foi de conhecer um pouco mais da relação de Draco com Astoria. Que história triste, mas que história bonita. Apesar da personagem Astoria não ser muito desenvolvida, acredito que seria alguém que todos gostaríamos de conhecer um pouco melhor.

♥ O que eu menos gostei

Como já referi não gostei essencialmente da trama criada em torno da personagem da Delphie – que achei desnecessária – mas houve, além disso, outros aspetos que me incomodaram um bocadinho.

Por exemplo, quem é afinal a cursed child? A Delphie? Ela já não é propriamente uma child e, além disso, ela não foi necessariamente amaldiçoada. Ou foi? Fala-se, na história, de uma profecia, mas não de uma maldição…
Esclareçam-me, por favor, se eu deixei passar alguma coisa em relação a isto..

Ainda neste campo das reclamações: o que é um ninho com asas (vide capa do livro) tem a ver com a história?  Eu sei que são detalhes, mas fiquei a pensar nisso e não cheguei a conclusão nenhuma.


♥ Em suma…
De modo geral gostei muito do livro e acho a premissa das viagens no tempo muito interessante. Gostei da ideia dos dois jovens 'excluídos' tentarem algo tão ousado para demonstrar o seu valor e de ver as repercussões que os seus atos teriam.

Acho que para quem é fan da saga, esta é uma oportunidade única de voltar a ler um Harry Potter inédito… ‘pela primeira vez’! Independentemente do formato da obra, a mão da autora está lá, a essência dos principais personagens está lá e acho muito positivo, ao fim de tantos anos, poder regressar a este universo.

❤