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sexta-feira, 10 de julho de 2026

#030 | A Montanha Mágica, de Thomas Mann

Autor:  Thomas Mann (Alemanha)
Título Original: Der Zauberberg (1924)
Editora: Dom Quixote
Edição: 7ª Edição, 2014 (840 págs.)

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Sobre o autor

Thomas Mann (1875–1955) foi um dos maiores romancistas e ensaístas alemães do século XX, profundamente conhecido pela sua análise irónica e detalhada da psicologia da burguesia europeia e dos conflitos entre a arte e a vida quotidiana.

Nasceu em 1875, na cidade alemã de Lübeck, iniciando a sua carreira literária, de modo brilhante em 1901, com a publicação de Os Buddenbrook. Seguiram-se-lhe obras como Tonio Kröger, A Morte em Veneza e A Montanha Mágica, entre outras, que lhe valeram a atribuição do Prémio Nobel em 1929. 

Em 1933, com a subida de Hitler ao poder, Mann mudou-se primeiro para a Suíça e depois para os EUA, onde ensinou na Universidade de Princeton e se naturalizou americano. São desta época obras como a tetralogia José e os Seus Irmãos, Lotte em Weimar e Doutor Fausto. 

Morreu em Zurique, em 1955.

Sobre a Obra – Sinopse

A narrativa inicia-se em 1907 e tem por base a história de Hans Castorp, um jovem recém-licenciado em engenharia naval, de 23 anos, de Hamburgo, descrito como um homem simples, comum, sem grandes ambições ou génio.

Após concluir seus estudos, e por recomendação do seu médico pessoal, Castorp decide viajar até aos Alpes Suíços (em Davos), para visitar o seu primo – Joachim Ziemssen – um jovem militar que se encontra internado no Sanatório Berghof*, frequentado pela mais alta aristocracia mundial, e que ali se reúne para curar a tuberculose. 

[  *O Berghof é inspirado num sanatório real – o Sanatório de Schatzalp – inaugurado em 1900 como uma clínica de luxo para tuberculosos precisamente em Davos, na Suíça, sendo famoso pelo seu terraço virado a sul e pelas espreguiçadeiras amarelas. Atualmente, funciona como hotel: o Berghotel Schatzalp.  ]

O plano inicial passa por demorar-se ali três semanas, para descansar, antes de retornar à sua rotina habitual e começar a trabalhar no estaleiro naval.

“Não era sua intenção dar importância especial a esta viagem ou deixar-se envolver demasiado nela. A sua ideia era antes despacha-la com rapidez, porque tinha que ser despachada, e voltar tal como havia partido, retomando a vida no exacto ponto em que se vira forçado a abandona-la, por breves instantes” (p.14).

Ao chegar a Berghof, Castorp depara-se com um microcosmo isolado, onde o tempo corre de forma diferente do mundo "lá de baixo", como os residentes chamam às planícies: os dias organizam-se rigidamente em torno de cinco faustosas refeições diárias, longos momentos de repouso obrigatórios nas varandas, passeios breves, medições constantes da temperatura e exames médicos periódicos.

Na verdade, Castorp estranha todo o ambiente do sanatório, chegando a rir-se de alguns hábitos que, parecendo-lhe descabidos, na cabeça dos de “cá em cima” fazem todo o sentido. 
Essa sensação de estranhamento aumenta quando, ao conhecer um dos médicos e reafirmando a sua condição de visita uma vez que “…graças a Deus, gozava da mais perfeita saúde” este lhe responde que “…o senhor é um espécimen inestimável para a ciência! É que nunca deparei até hoje com ninguém de saúde perfeita!” (p. 28)

Logo no primeiro dia, Castorp vai começando a apresentar alguns sintomas, como palpitações, faces quentes e ruborizadas, que atribui os efeitos da altitude.
Contudo aos poucos, esses sintomas vão se intensificando, culminando num episódio violento de epistaxis e, pouco antes de concluir as três semanas de estadia, numa ligeira febre e numa tosse persistente. 

Em plena manhã, entre as dez e as dez e meia: 37,6. Era muito, era “temperatura”, era febre resultante de uma infeção para a qual ele revelara predisposição” (p. 195)

Após insistência do primo, Castorp deixa-se examinar pelo diretor clínico do sanatório – o Conselheiro Behrens – que lhe deteta uma mancha no pulmão. O diagnóstico é claro e Castorp precisa de ficar internado. Assim, o que deveriam ser 21 dias de visita transformam-se, subitamente, numa estadia mais prolongada, com fim indeterminado.

A história vai então desenrolar-se tendo por base o dia-a-dia de Hans Castorp embora, no fundo, o que se esteja a contar seja também o dia-a-dia do sanatório.
Vivendo-se, neste local, uma rotina tão previsível, os acontecimentos assentam sobretudo na discussão de ideias e perceções entre os diferentes utentes deste sanatório, com os quais Castorp se relaciona.

Desenvolvimento da narrativa (detalhado, com os Spoilers)

As três semanas transformam-se rapidamente em meses e, depois, em anos. O tempo no sanatório parece diluir-se e passar de forma diferente do mundo “lá de baixo". 
Nós próprios, leitores, temos essa perceção. Enquanto que a leitura do primeiro dia leva imensas páginas mas temos a sensação de que passou num ápice (mesmo tratando-se de praticamente 100 páginas), outros momentos existem em que o tempo parece parar, e em que nada acontece, apesar de ter passado imenso tempo, na narrativa.

Neste tempo, o sanatório funciona como um espelho da própria Europa da época, reunindo doentes de várias nacionalidades. Durante este longo isolamento na montanha, Castorp é exposto a uma intensa "educação" filosófica e humana através do convívio com os outros pacientes, sendo moldado e disputado intelectualmente por várias figuras que representam diferentes correntes de pensamento. 

É neste contexto que conhecemos Lodovico Settembrini, um intelectual italiano, humanista, que defende o progresso científico, a razão e a democracia. Settembrini procura assumir o papel de conselheiro de Castorp, tentando constantemente alertá-lo para os perigos da apatia espiritual do sanatório e instigando-o a regressar à vida ativa "lá de baixo".
Podemos ainda referir que Lodovico Settembrini desempenha o papel crucial de primeiro mentor intelectual e espiritual de Hans Castorp. Quando Castorp chega ao sanatório de Berghof, ele é um jovem engenheiro naval "comum", pragmático, burguês e sem grande profundidade filosófica. No entanto, é nas discussões com Settembrini que Castorp desperta desse estado letárgico e se dá o seu despertar intelectual, funcionando estas discussões como um motor para a sua curiosidade. 
Percebe-se que Settembrini é muitas vezes crítico ao que o rodeia: julga as diferentes personagens que vivem no sanatório, inventa apelidos para os médicos e satiriza o processo de doença e de cura. Não obstante, e por se encontrar realmente doente, permanece naquele meio.
Embora Castorp muitas vezes ache Settembrini um pouco tagarela, pedante e idealisticamente ingênuo – apelidando-o carinhosamente de "o tocador de realejo" – o respeito que nutre por ele é imenso.

Posteriormente, numa das refeições, Castorp repara numa paciente jovem – Clawdia Chauchat – que o irrita e simultaneamente o fascina, pelo seu comportamento livre, demonstrado no hábito de bater com as portas, sem se importar com as boas maneiras ou sem demonstrar consideração pelos outros utentes. Clawdia é uma mulher russa, casada com um francês, enigmática, por quem Castorp se apaixona platónica e obsessivamente. Qualquer olhar, qualquer movimento do corpo é interpretado por Castorp como uma mensagem para si embora demore muito a que eles realmente se conheçam e conversem.

O tempo vai passando e Castorp adapta-se totalmente à rotina. O tempo começa a perder o sentido cronológico tradicional, os meses fundem-se, e os dias passam, marcando-se o tempo não pelo relógio, mas pelos momentos de refeições, pelas as medições de temperatura e pelos discursos pedagógicos de Settembrini.
Castorp resolve dedicar o seu tempo à leitura e ao estudo.

…Hans Castorp retorquiu que preferia ter os seus próprios livros, que a leitura era completamente diferente quando os livros nos pertenciam, para além de que gostava de ir sublinhando e tirando notas com o lápis” (p. 310)

- Tu também não parar de aprender aqui em cima, com a tua biologia e botânica, mais as tuas voltas e reviravoltas insustentáveis. (…) E, todavia, ao é para aumentarmos a nossa erudição que aqui estamos, mas para recuperar a saúde…” (p. 434)

Neste ponto encontramos aquele que é, a meu ver, um dos momentos mais bonitos e significativos de A Montanha Mágica, marcando uma viragem profunda na postura de Hans Castorp em relação à vida, à morte e às regras rígidas daquele microcosmo que é o Sanatório Berghof.

Até esse ponto, os pacientes em estado terminal — os chamados "moribundos" — eram mantidos deliberadamente invisíveis pela direção do sanatório, isto é, reclusos nos seus quartos. Em caso de óbito, os caixões eram transportados em segredo (muitas vezes à noite, de trenó) para que os hóspedes "vivos" não tivesses que confrontar-se com o seu próprio destino.
Hans Castorp, no entanto, começa a achar essa atitude de "ignorar a morte" profundamente hipócrita e desumana, sentindo que a verdadeira compaixão e dignidade humana exigem que se olhe para o sofrimento de frente.

Hans decide então arrastar Joachim e começar a visitar os doentes terminais para lhes levar algum conforto, flores e uma presença humana nos seus últimos dias.
Inicialmente Joachim resiste uma vez que, para ele, as regras do sanatório são para ser cumpridas e o foco deve ser estritamente na sua própria cura. No entanto, Hans consegue apelar ao sentido de "dever" e "caridade" do primo, convencendo-o de que prestar homenagem aos que sofrem é uma forma de honra e cavalheirismo.

Ao visitar os moribundos, Hans desafia a pedagogia higiénica e fria de Behrens e o racionalismo puro de Settembrini, que vê nesta obsessão pela morte um retrocesso doentio e pouco progressista.

Esta obsessão culmina numa visita ao cemitério de Dorfberg, na qual Hans e Joachim se fazem acompanhar de Karen Karstedt, uma jovem moribunda de 19 anos que, por falta de verbas, vivia numa pensão barata, nos arredores do sanatório, sendo tratada particularmente pelo conselheiro, a título de caridade.

Era, pois, sobretudo a mocidade, e não a gente adulta, que habitava aquele reconto, um povo nómada que ali se havia reunido vindo dos sete cantos do mundo e que escolhera a forma de existência horizontal como última morada” (p. 363)

Chegamos então ao sétimo mês de Castorp no sanatório. 
Aqui, pela primeira vez, o silêncio e a simples troca de olhares com Clawdia chegam ao fim, na festa de Carnaval do sanatório – Noite de Walpurgis – onde a abundância de álcool e o espírito festivo de “faz de conta” e flexibilizam as regras. Castorp ganha coragem e fala com Clawdia, pedindo-lhe um lápis emprestado, para um jogo. Este pedido remete para uma situação vivida por Castorp na infância quando pedir um lápis a um colega serviu também de pretexto para quebrar o silêncio. Também por este colega Castorp nutria sentimentos platónicos, pelo que, esta relação funciona como um espelho do que Castorp vive, no presente, em relação a Clawdia.
Posteriromente, nesta noite, Castorp declara o seu amor numa longa conversa em francês. No entanto, é informado que na manhã seguinte Clawdia partiria do sanatório, deixando-o devastado. Como recordação, ela deixa-lhe a sua radiografia torácica, que Hans guarda como um talismã.

Settembrini, cuja saúde melhora ligeiramente, e face à necessidade de procurar alguma “normalidade” para poder continuar a escrever e trabalhar, muda-se para uma casa na aldeia de Davos. Hans e Joachim vão visitá-lo e conhecem o outro inquilino da casa, Leo Naphta, um jesuíta convertido de origem judaica.
Naphta é o oposto absoluto de Settembrini: defensor do totalitarismo, do comunismo teocrático e do misticismo irracional que justifica a violência em nome da fé.

Seguem-se meses de passeios a pé onde Hans assiste e participa em debates ferozes entre Settembrini e Naphta. Ao ser colocado no meio desse fogo cruzado entre a Settembrini (defensor da razão, liberdade e progresso) e Naphta (defensor do misticismo, terror espiritual e submissão), Castorp é forçado a deixar de ser um mero espectador, precisando processar os argumentos de ambos para começar a formular seus próprios pensamentos.

A determinado momento, desesperado por cumprir o seu sonho de ser soldado e farto da inação do sanatório, Joachim decide abandonar Berghof, ainda que contra as ordens médicas, e junta-se ao exército na Alemanha. Hans recusa-se a acompanha-lo e decide ficar “sozinho” na montanha.

Será possível que ele me deixe sozinho aqui em cima, a mim, que apenas aqui vim para o visita?!” (p. 467)

A saída de Joachim corre mal e o seu estado de saúde piora drasticamente no exército. Ele é forçado a regressar a Berghof, acompanhado pela sua mãe. Hans apoia o primo, mas a tuberculose na laringe destrói Joachim rapidamente. Joachim morre no sanatório, deixando Hans profundamente abalado pela sua primeira grande perda ali em cima.

Durante um inverno rigoroso, Hans sente que está a ficar demasiado apático e decide desafiar as montanhas: Compra esquis em segredo e faz uma excursão sozinho. Esta decisão é entusiasticamente apoiada por Settembrini que sempre incentivou Castorp a procurar sentir-se “vivo”.
Contudo, no meio do passeio, Castorp é apanhado por uma tempestade de neve, perdendo-se e ficando apenas parcialmente protegido, temporariamente, por uma cabana de madeira. Exausto, e depois de beber um pouco de Vinho do Porto, achando que se ia aquecer, Hans adormece (ou desmaia) sofrendo alucinações vívidas induzidas pelo frio. Ao despertar, Castorp tem um momento de epifania, onde todas as reflexões, discussões e aprendizagens vividas naqueles anos lhe fazem absoluto sentido. 
Muitos defendem que esta visão alucinatória resume a tese do livro: ele compreende que o amor e a vida devem prevalecer sobre o fascínio doentio pela morte, concluindo que "Se o homem quer cultivar a bondade e o amor, não pode permitir que a morte tome conta dos seus pensamentos” (p. 560) 
Ele sobrevive por milagre e regressa ao sanatório, já à noite, mas rapidamente se esquece das grandes revelações que teve na neve, voltando à rotina letárgica: “O que havia pensado, começava, naquela mesma noite, a fazer pouco sentido.” (p. 561)

Ao fim de algum tempo Clawdia Chauchat regressa finalmente a Berghof, embora não venha sozinha e sim acompanhada por um novo amante, Pieter Peeperkorn, um velho magnata holandês, ex-plantador de café, vistoso e imponente.

Ao contrário de Settembrini e Naphta, que são homens de palavras e intelecto, Peeperkorn é um homem de presença física, vitalidade e pura força de personalidade que, embora seja incapaz de articular uma frase completa, domina o sanatório. A sua energia fascina toda a gente, incluindo Hans que, em vez de sentir ciúmes por Clawdia, fica amigo e profundamente submisso à presença de Peeperkorn. 
Não obstante este efeito contagiante, Settembrini consegue manter a objetividade a avaliar realmente quem é Peeperkorn.

– Mas, por amor de Deus, meu engenheiro, este homem não passa de um velho estupido! O que é que o senhor vê nele? Ele dá-lhe algum estímulo? Isto ultrapassa-me completamente!” (p. 660)

Peeperkorn sofre secretamente de febres tropicais, percebendo que as suas forças e a sua virilidade estão a falhar. Incapaz de aceitar o declínio físico, ele constrói uma máquina engenhosa com agulhas e veneno de cobra e suicida-se. Clawdia parte do sanatório pouco tempo depois, desta vez para sempre.

O tempo vai passando e o ambiente em Berghof converte-se numa onda de tédio profundo. Hans deixa de se interessar pela ciência ou pelos debates e passa os dias a ouvir música num gramofone que o sanatório comprou, assumindo a responsabilidade por cuidar dos discos. Além disso, para passar o tempo, começam a organizar-se sessões de espiritismo, nas quais Castorp participa chegando a acreditar ver o fantasma do primo Joachim, para completo repúdio de Settembrini.

O senhor Settembrini pregou lhe um sermão como devia ser, conseguindo, pelo menos a título provisório, leva-lo à razão e arrancando-lhe ate a promessa de nunca mais voltar a participar em coisas tão abomináveis.
-Respeite – exigiu – o homem que existe dentro de si, engenheiro! Deposite confiança no pensamento lúcido e humano e esconjure os emaranhados mentais, o antro do espírito!” (p. 759)

Apesar destas tentativas de distração o ambiente não melhora, vivendo-se um clima de tensão misturada com irritabilidade, mal-estar, disputas e quezílias constantes entre os pacientes. 

Neste contexto, percebemos uma crescente tensão entre Settembrini e Naphta que, devido a uma discussão ideológica banal, explode, levando Naphta a desafiar Settembrini para um duelo à pistola. 
No campo, Settembrini recusa-se a disparar contra o amigo e dá um tiro para o ar. Naphta, enfurecido pela generosidade do rival e pelo impasse por ele criado, acusa-o de cobardia e dá um tiro na própria cabeça, morrendo instantaneamente.

No sétimo ano de Hans no sanatório, em 1914, o "trovão histórico” rebate na montanha: rebenta a Primeira Guerra Mundial, quebrando o feitiço que prendiam Hans a Berghof.
O sanatório esvazia-se à medida que os pacientes correm para os seus países de origem, levando Hans a fazer as malas, despedindo-se, em lágrimas, de um Settembrini progressivamente mais doente.

A narrativa termina abruptamente nos campos de batalha lamacentos da Europa Ocidental. Vemos Hans Castorp fardado, como um soldado de infantaria comum, entre milhares, a avançar na lama e no caos, sob fogo de artilharia, trauteando uma canção de Schubert enquanto desaparece no fumo da guerra, rumo a um destino incerto.
Thomas Mann não nos diz se ele sobrevive ou morre, sugerindo apenas que as hipóteses são escassas, tendo o jovem burguês sido finalmente devolvido à realidade da História.



Análise da Obra

Após uma exposição da narrativa, quero aprofundar um pouco alguns aspetos específicos da obra, que advieram de leituras complementares, das aulas disponibilizadas pelo Clube de leitura que assino e de “discussões” sobre a obra.

A narrativa assenta essencialmente em dois eixos: o eixo filosófico, representado por Settembrini e Naphta e o eixo emocional, representado por Clawdia Chauchat.

Lodovico Settembrini e Leo Naphta

A relação entre Settembrini e Naphta é considerada, por muitos, o verdadeiro motor filosófico de A Montanha Mágica. Eles não são apenas duas personagens que discordam, mas sim são opostos ideológicos criados para encenar o grande debate intelectual que fraturava a Europa no início do século XX, disputando a alma e a formação do jovem e impressionável Hans Castorp.

A dinâmica entre os dois baseia-se numa contradição total de valores, cada um atacando e contradizendo o ponto fulcral da visão do outro:

Enquanto Lodovico Settembrini representa a razão burguesa, sendo um italiano, herdeiro do Iluminismo e do Humanismo, Leo Naphta representa o radicalismo místico, sendo um judeu convertido ao Catolicismo, jesuíta.
Enquanto Lodovico Settembrini se veste com roupas gastas, mas com dignidade aristocrática, usando a retórica como uma arte refinada, Leo Naphta vive num apartamento luxuoso e sombrio, sendo possuidor de uma mente cirúrgica, fria e de um brilhantismo feroz.
Enquanto Settembrini acredita no progresso linear da humanidade, na ciência, na democracia, na liberdade individual e na emancipação do homem, Naphta despreza o progresso, vendo a história de forma cíclica e apocalíptica, defendendo o absolutismo espiritual e o regresso a uma ordem ascética.
Enquanto Settembrini defende o Estado secular e os direitos humanos, Naphta defende uma mistura paradoxal de comunismo utópico e teocracia medieval, defendendo a "ditadura de Deus" e o terror em nome da salvação coletiva.
Por fim, enquanto Settembrini vê a doença como uma fraqueza e uma humilhação do espírito humano, devendo o corpo deve ser saudável para servir a mente, Naphta vê o corpo com desprezo. Para ele, a doença é superior à saúde, pois purifica o espírito e aproxima o homem de Deus.

Quando Settembrini e Naphta se juntam nas caminhadas pelos trilhos gelados de Davos, os seus diálogos transformam-se em duelos verbais de uma sofisticação extrema.

Settembrini usa uma abordagem pedagógica clássica. Ele quer que Hans Castorp seja um cidadão útil na planície. Por outro lado, quando Naphta entra em cena, ele destrói sistematicamente o otimismo de Settembrini, apontando as contradições do capitalismo burguês e da ciência. Naphta argumenta, por exemplo, que a ciência secular destituiu a vida humana de significado, e que a liberdade individual burguesa é apenas uma ilusão que gera solidão.

Apesar de se odiarem no plano das ideias, existe entre Settembrini e Naphta uma profunda dependência intelectual e um forte respeito mútuo uma vez que, no fundo, eles precisam um do outro. Naquele sanatório isolado do mundo, eles são os únicos parceiros de diálogo à altura um do outro, procurando-se ativamente para debater. A sua relação é quase como um jogo de xadrez eterno onde a amizade e a hostilidade se fundem. Settembrini, de forma paternalista, tenta proteger Castorp das garras intelectuais de Naphta, que considera "venenosas", mas nunca recusa o debate.

À medida que o livro avança a atmosfera de debate intelectual saudável degrada-se. A tensão ideológica que flutua no ar da Europa contamina as personagens e a cortesia dá lugar à impaciência, à irritabilidade e à hostilidade.
O culminar da relação ocorre num duelo com pistolas — uma metáfora de Thomas Mann para a falência do diálogo e o início inevitável da Primeira Guerra Mundial.

Não obstante, no momento de disparar, Settembrini, fiel aos seus princípios humanistas de respeito pela vida humana, decide disparar para o ar, recusando-se a matar o rival. Naphta, confrontado com a generosidade moral de Settembrini, que desarmou ideologicamente o seu desejo de martírio e violência, entra em colapso psicológico e dá um tiro na própria cabeça.

Com a morte de Naphta e a subsequente partida de Hans para a guerra, encerra-se o grande debate. A palavra escrita e falada perde o seu poder, dando lugar ao som dos canhões na planície.

Clawdia Chauchat e a Noite de Walpurgis

Se Settembrini e Naphta disputam a mente e o intelecto de Hans, Clawdia conquista o seu corpo e o seu inconsciente. Ela representa a força do Eros, embora inevitavelmente ligado à doença, à decadência e à morte.

Após chegar ao Sanatório Berghof, Hans repara numa mulher russa que entra na sala de jantar batendo as portas com estrondo, um comportamento que choca profundamente a educação burguesa, rígida e alemã de Hans. Essa mulher é Clawdia Chauchat.

Clawdia tem olhos ligeiramente oblíquos e asiáticos sendo que, ao olhar para ela, Hans é assolado por um sentimento intenso de déjà vu. Mais tarde, ele recorda-se de onde conhece aquele olhar: assemelha-se exatamente ao de Přibislav Hippe, um colega de escola por quem Hans nutriu uma paixão platónica e secreta na adolescência (um amor simbolizado pelo episódio anteriormente referido em que Hans lhe pede um lápis emprestado).
Durante meses, Hans não tem coragem para falar com Clawdia, limitando-se a observá-la, a estudar os seus gestos desleixados, a sua postura livre e a sua aparente indiferença às regras do sanatório. Esta obsessão serve como um "combustível" para a febre de Hans, justificando a sua permanência na montanha, uma vez que estar doente significa poder continuar no mesmo espaço que Clawdia.

A quebra do silencio e vivência desta paixão acontece no capítulo "Noite de Walpurgis" (Walpurgisnacht), durante a festa de Carnaval do sanatório. Sob o efeito do álcool e da quebra temporária das barreiras sociais do sanatório, as hierarquias dissolvem-se. Repetindo o padrão da sua infância com Přibislav Hippe, Hans ganha coragem e aproxima-se de Clawdia para lhe pedir um lápis emprestado para o jogo de Carnaval, estabelecendo este objeto a ponte entre o passado e o presente.

No decorrer da noite Hans declara o seu amor a Clawdia falando em francês. O uso de uma língua estrangeira é crucial: liberta Hans da rigidez moral da sua língua natal (o alemão) e permite-lhe expressar desejos reprimidos, falar sobre o corpo, a anatomia e o amor de uma forma que nunca conseguiria na sua própria cultura burguesa.
Para Hans Castorp, Clawdia personifica o conceito de decadência libertadora. Na planície germânica, Hans estava destinado a ser um engenheiro, focado no trabalho, no dever e na saúde. Clawdia representa o oposto: o ócio, a entrega aos sentidos, o mistério do Oriente (a Rússia) e a aceitação da fragilidade biológica. Através do amor por ela, Hans compreende que a doença e o pecado também podem ser caminhos de conhecimento espiritual, algo que horroriza o seu mentor humanista, Settembrini.

Neste ponto, alguns textos levantam a questão: Hans e Clawdia consumaram, ou não, a sua relação na Noite de Walpurgis?
Embora haja quem defenda que existem indícios fortíssimos de que sim, fiel ao seu estilo irónico e altamente simbólico, Thomas Mann nunca descreve nada de forma explícita. 

Não obstante, ele deixa algumas pistas textuais e metafóricas.

O indício mais famoso e simbólico do livro é quando Hans ganha coragem para falar com Clawdia e lhe pede um lápis emprestado. O ato de pedir e devolver o lápis a Clawdia funciona como uma chave que abre as portas do diálogo e da intimidade entre os dois.
Durante a conversa na Noite de Walpurgis, como referido, os dois começam a falar em francês uma vez que, segundo Hans, isto permite-lhe falar "sem responsabilidade", facilitando a confissão do seu amor de uma forma que o alemão (mais formal e rígido) não permitiria. À medida que a noite avança, Hans abandona o tratamento formal (vous) e passa a tratar Clawdia por tu (tu), quebrando todas as barreiras sociais.
No final da conversa daquela noite, Clawdia revela que vai partir no dia seguinte e, ao despedir-se de Hans, entrega-lhe o lápis e diz-lhe uma frase que serve como um convite claro para o seu quarto, sugerindo, de forma provocadora, que ele a pode ir visitar: 

"– Adeus, meu príncipe Carnaval! Prevejo para si uma curva de febre muito má para esta noite.
E, dito isto, deslizou da cadeira, caminhando, furtiva, pelo tapete, rumo à porta, onde se deteve, hesitante, o corpo meio voltado para trás, erguendo um dos braços nus, a outra mão pousada na maçaneta. Por cima do ombro, disse baixinho:
–Não se esqueça de devolver-me o lápis.
 E saiu" (p. 387 / p. 826), 

O narrador faz um corte abrupto na narrativa após essa conversa e não nos mostra o que acontece na madrugada. No entanto, no dia seguinte, quando Clawdia parte de carruagem, Hans Castorp está a olhar pela janela e o livro revela que ele guarda um "souvenir" muito íntimo dela: não o lápis, mas sim a chapa do raio-X do tórax de Clawdia (que mostra os seus pulmões doentes). Ela, por sua vez, leva consigo a chapa do raio-X de Hans. No universo de A Montanha Mágica, onde a doença, o corpo e o erotismo estão profundamente interligados, a troca das chapas de raio-X funciona como o equivalente literário de uma aliança de casamento ou de um pacto carnal.

Quando ela regressa, anos mais tarde, a forma como Hans e Clawdia interagem e a cumplicidade silenciosa (e tensa) que partilham, parece validar que o que aconteceu entre eles na Noite de Walpurgi foi muito além de uma simples conversa intelectual.
Contudo, ela já não vem sozinha, trazendo consigo Pieter Peeperkorn, um magnata holandês mais velho, imponente e carismático, de quem se tornou amante. Esta situação poderia destruir Hans, mas Thomas Mann subverte as expectativas: Em vez de odiar Peeperkorn por ciúmes, Hans fica fascinado pela personalidade magnética do holandês, acabando os dois por se tornarem amigos próximos, unidos pelo amor partilhado pela mesma mulher. Hans aceita uma posição secundária no triângulo amoroso, submetendo-se à monumental "presença viva" de Peeperkorn.

Clawdia assiste a isto com uma mistura de ternura e melancolia, percebendo que Hans já não é o jovem ingénuo que conheceu, mas alguém que amadureceu através do sofrimento e da contemplação.
Após o trágico suicídio de Peeperkorn, Clawdia deixa o sanatório definitivamente. O adeus final entre Hans e Clawdia é silencioso e destituído do fervor erótico do passado, marcado por um beijo simples e pela aceitação de que aquele ciclo das suas vidas se encerrou. 

Capítulo Neve (Schnee)

Este capítulo, mencionado no posfácio como “o coração do romance” (p. 829), pode ser analisado em três níveis: a ação física, o simbolismo e a revelação filosófica.

Após anos preso à rotina repetitiva e passiva do sanatório, onde a vida se resume a comer, “medir a febre” e repousar na varanda, Hans Castorp sente, finalmente, um ímpeto desesperado de romper com aquele marasmo. Decide, por isso, comprar um par de esquis e aventurar-se sozinho pelas montanhas cobertas de neve profunda.
Este ato é, por si só, uma demonstração de rebelião e um desafio à autoridade, uma vez que o sanatório proíbe e desencoraja qualquer esforço físico para os doentes. Além disso, ao entrar na montanha, Hans abandona o tempo artificial e protegido de Davos para enfrentar as forças brutas da Natureza.
Hans esquia e caminha até se perder completamente numa tempestade de neve branca e ofuscante. O espaço perde as referências, tudo se torna num vazio branco acentuado pela repetição visual na paisagem, e o tempo desaparece. 

…o que significava que há mais de uma hora – pelas suas estimativas – que andava às voltas sem nexo nem proveito.” (p. 548)

“Eram quatro e meia. Que diabo, fora mais ou menos a essa hora que a tempestade começara! Seria possível que a sua deriva pouco mais houvesse durado do que um quarto de hora? “O tempo tornou-se longo para mim” pensou. “Pelos vistos, andar perdido toma tempo.” (p. 550)

À beira do esgotamento, ele abriga-se contra a parede de uma cabana abandonada e, embalado pelo frio extremo, entra num estado de alucinação e sonho.
Durante o delírio da hipotermia, Castorp tem uma visão arquetípica dividida em duas partes contrastantes, que representam a dualidade da própria humanidade: A baía luminosa (representando a Utopia Humanista), onde, primeiramente ele vê uma paisagem mediterrânica idílica, banhada pelo sol, habitada por pessoas belas, educadas, que se tratam com mútua cortesia, dignidade e respeito. É a representação visual do ideal iluminista e helénico de Settembrini: a civilização perfeita, a razão e a harmonia. Segue-se uma imagem de um Sacrifício Horrendo (representando o Abismo Primitivo), no qual, no centro da comunidade, se ergue um templo de mármore. Hans entra nele e depara-se com uma cena de pesadelo: duas bruxas velhas e terríveis que esquartejam e a devoram uma criança viva, sobre um altar de pedra. É a representação das forças ctónicas, do horror, da morte, do irracionalismo selvagem e do caos que Naphta tanto defende.
Hans acorda sobressaltado desta alucinação com uma clareza mental que nunca tinha tido. Ele compreende que a beleza e a polidez da civilização humana só existem porque o homem conhece e reprime o horror arcaico. A verdadeira humanidade não ignora a morte, mas ergue-se acima dela.
É neste momento que Castorp formula a frase que serve de tese moral a todo o romance:

"Se o homem quer cultivar a bondade e o amor, não pode permitir que a morte tome conta dos seus pensamentos” (p. 560) 

Este pensamento é uma vitória intelectual sobre os seus dois mentores:
Se por um lado ele rejeita Settembrini, cujo humanismo burguês e otimista é ingénuo porque recusa olhar para o abismo, para a doença e para a morte, por outro, rejeita também Naphta, cujo misticismo sombrio está apaixonado pela morte, pelo terror e pela destruição.
Castorp compreende que o ser humano é superior tanto à pura razão quanto ao puro caos e que o homem é o senhor das contradições, sendo o amor a única força capaz de mediar a vida e a morte, a saúde e a doença.

A importância do capítulo "Neve" reside ainda na profunda ironia que se segue. Após esta epifania quase divina, a tempestade passa. Hans Castorp consegue erguer-se e regressar ao Sanatório Berghof a tempo do jantar, voltando a sentar-se à mesa com os outros doentes.
Mas o que acontece a seguir? Ele esquece-se de tudo.
Ao fim de poucas horas, a rotina esmagadora, o calor do sanatório e a letargia do "tempo da montanha" dissolvem a revelação que ele teve na neve. A lição de que o homem deve viver pelo amor e não pela morte perde-se no seu inconsciente.
Thomas Mann mostra-nos aqui a fragilidade da nossa consciência: o homem é capaz de alcançar picos extraordinários de sabedoria na solidão e no perigo, mas é facilmente corrompido e anestesiado pelo conforto e pela mediocridade do meio social. 

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Em suma, podemos referir como Temas Fundamentais em discussão

1. A Perceção e a Natureza do Tempo
Se tivermos que restringir este livro a um único assunto podemos dizer que o tempo é o verdadeiro protagonista do romance. Mann distingue o tempo cronológico (da física) do tempo psicológico (da experiência). Na montanha, a rotina é tão rígida e repetitiva que os dias se fundem. O passado e o futuro perdem o sentido, criando uma sensação de imobilidade e eternidade onde os pacientes perdem a noção de quantos anos ali passaram. O próprio livro reflete isto: os primeiros capítulos detalham os primeiros dias minuciosamente enquanto que os últimos capítulos saltam anos inteiros num parágrafo.

Este é um aspeto que faz parte do seu romance, que é um romance sobre o tempo, independentemente do porto de vista que adoptemos” (p. 613)

2. A Doença como Elevação Intelectual
Contrariando a visão puramente biológica, a doença em Berghof não é apenas uma maleita física, mas quase uma distinção aristocrática. O sofrimento físico e a proximidade da morte assumem-se como uma condição espiritual que refinam a mente e a sensibilidade dos pacientes, tornando-os mais propensos à filosofia e à arte. 
Para Hans, os saudáveis começam a parecer figuras simplórias e superficiais, enquanto os doentes possuem uma profundidade e uma sensibilidade que ele passa a cobiçar. O declínio físico liberta a mente das obrigações mundanas, permitindo-lhe dedicar-se à pura contemplação filosófica. Assim, para Castorp, estar doente é o que lhe permite deixar de ser um engenheiro medíocre e tornar-se um pensador.

De certa maneira, a doença é algo de venerável, se é que me posso exprimir assim. (…) Tendemos a acreditar que uma pessoa estupida é um ser saudável e comum, ao passo que a doença nos torna refinados, inteligentes, especiais. É uma convicção generalizada, não é?” (p. 116).

Esta ideia é, contudo, veementemente contrariada por Settembrini.

Pois bem, não aceito! A doença não é nada de distinto, nada de venerável (…). Talvez a forma mis capaz de lhe despertar aversão por essa ideia consista em dizer-lhe que ela é antiga e feia.” (p. 117) 

Thomas Mann tinha uma obsessão pessoal e literária (muito influenciada por filósofos como Arthur Schopenhauer e o compositor Richard Wagner) pela ideia da beleza mais refinada, da arte e da inteligência espiritual estarem intimamente ligadas à doença, à decadência e à morte.

3. O Debate Ideológico e a Crise da Europa
O confronto verbal constante entre Settembrini e Naphta, Mann faz um retrato de uma Europa em ebulição, antecipando as forças ideológicas que iriam dilacerar a Europa no século XX, lembrando que o romance se inicia em 1907, embora tenha sido lançado em 1924. Enquanto os dois debatem, o sanatório continua a sua rotina alienante. Castorp ouve ambos, mas recusa-se a render-se inteiramente a qualquer um dos lados.
Thomas Mann usa Berghof para plasmar a crise europeia através de vários sintomas como a paralisia do tempo (no sanatório, os dias misturam-se e os anos passam sem que nada mude, refletindo uma Europa rica e burguesa, que perdeu o rumo e a vitalidade, vivendo numa espécie de anestesia histórica) e a perda de valores comuns (tornando-se os debate entre Settembrini e Naphta cada vez mais radicais, violentos e incapazes de encontrar um meio-termo, mostrando que a Europa perdeu o consenso sobre o que é a Verdade, o Bem ou a Justiça. Quando o diálogo falha a este nível, o passo seguinte é a guerra.
O culminar desta crise ideológica não se resolve através da filosofia, mas sim através da tragédia. O debate entre Settembrini e Naphta termina, literalmente, num duelo físico a tiro, mostrando que a incapacidade de comunicar tende a transformar-se em violência.
Logo a seguir, rebenta a Primeira Guerra Mundial — a que Mann chama o "Trovão", quebrando o encanto da montanha. Hans Castorp passa sete anos anestesiado naquele debate e naquela rotina, mas a realidade histórica arrasta-o de volta.

4. Amor e Fascínio pelo Declínio (Decadência)
Há uma atração constante pelo mórbido, pelo proibido e pelo declínio moral. O sanatório é uma metáfora para a elite europeia que, fechada na sua riqueza e privilégios, ignora as tensões geopolíticas que crescem "lá em baixo". Os pacientes gastam fortunas a cuidar de si mesmos enquanto o continente caminha para o abismo.
O maior exemplo do entrelaçamento entre amor e declínio é a paixão avassaladora de Hans por Clawdia Chauchat, a misteriosa e sedutora russa do sanatório.
O amor de Castorp está profundamente ligado ao facto de Clawdia estar doente e de representar o oposto das regras rígidas da sociedade burguesa de onde ele veio. Clawdia atrai Hans precisamente porque representa o oposto da disciplina burguesa alemã: ela bate com as portas, tem uma postura relaxada, desleixada e carrega o estigma da tuberculose.

É Madame Chauchat – esclareceu. – É tão descuidada. Uma mulher encantadora.” (p. 94)

Verifica-se ainda que, no famoso episódio da noite de Carnaval, quando Hans finalmente se declara a Clawdia (falando em francês, a língua do desapego e da quebra de barreiras), ele não faz uma ode à sua beleza clássica, fazendo, por outro lado, um longo elogio anatómico e lírico ao seu corpo doente. Para Hans, amar Clawdia é amar a fragilidade da carne, os pulmões tocados pela enfermidade, a febre que acelera o pulso.

O Berghof traduz uma estufa onde os pacientes se adaptam de tal forma à sua decadência que passam a ter pânico da cura. Regressar à planície, à saúde e à rotina produtiva é visto como uma vulgarização, tornando-se o declínio algo confortável, erótico e poético.

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A minha opinião

Não posso dizer que esta subida à Montanha e o meu tempo em Berghof tenha sido linear.
 
Enquanto, numa fase inicial, a descrição minuciosa das rotinas do sanatório e das suas personagens me encantou e interessou muito, com o avançar da leitura também eu senti o tempo a dilatar-se e arrastar-se. Penso que era precisamente esta a ideia do autor. Fazer-nos também perder a noção do tempo e, com a discussão de diversos temas, ora nos entusiasmar, ora nos aborrecer, para percebermos que o tempo não se mede linearmente. 

Thomas Mann foi exímio em transmitir a sensação de monotonia e entorpecimento que as personagens sentem, principalmente ao longo dos intermináveis e exasperantes diálogos entre Settembrini e Naphta. Percebo a importância destes dois contrapontos para a formação de Castorp (especialmente atendendo a todos os pontos acima expostos) contudo fiquei com a sensação que o autor quis verter para este livro todas as suas inquietações, pensamentos e áreas de interesse, quase como se de pequenos ensaios se tratassem.

Mais uma vez, percebo a ideia, mas poderiam muito bem ser cortadas duas centenas de páginas sem grande prejuízo da narrativa (ou precisávamos mesmo de 20 páginas a descrever as músicas favoritas de Hans para percebermos a relevância do Der Lindenbaum?).

Um dos pontos positivos é o bom humor do narrador, que ora se aproxima, ora se distancia de Hans, sempre com alguma observação interessante e espirituosa.

Por outro lado, achei o final em aberto ligeiramente agridoce. Interpretei o final precipitado como um reflexo da urgência imposta pela guerra, contudo, depois de acompanhar Hans por tanto tempo, perder-lhe o rasto no meio da Guerra, deixou um sabor amargo na boca.

E assim o perdemos de vista, no meio do bulício, da chuva, do lusco-fusco.
Adeus Hans Castorp, filho ingénuo e traquinas da vida! A tua história chegou ao fim. Terminámos a narrativa. Não foi uma história nem longa nem curta, apenas hermética. Não foi por ti que a contamos, porque tu és uma pessoa simples, mas pela história em si. Não deixou, todavia, de ser a tua história e, se este destino de coube, ao fim e ao cabo, em sorte, é porque decerto reúnes algumas qualidades ocultas. Não queremos aqui negar uma certa afeição pedagógica que ganhamos por ti ao longo da narrativa, uma simpatia que nos poderia levar a tocar no canto do olho ao de leve, com uma ponta da unha, ao pensar que não tornaremos a ver-te ou a ouvir-te no futuro.
Boa viagem! Agora é viver ou morrer” (p. 815-816)

No final fica a reflexão: Não importa o quanto Hans se educou, o quanto estudou, se concordou mais com Settembrini ou com Naphta, no final, todo o seu desenvolvimento intelectual e filosófico de nada lhe serviram perante a brutalidade da Guerra.

Certas aventuras da carne e do espírito, que sublimaram a tua ingenuidade, permitiram-te vencer na esfera do espírito aquilo a que provavelmente sucumbirás na esfera da carne” (p. 816)




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