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sábado, 23 de julho de 2016

#013.08 | Lendo Guerra e Paz ♡ 08 Tomo II – 5ª Parte

Hoje venho continuar o meu diário de leitura de Guerra e Paz, desta vez em relação à 5ª (e última) parte do 2º Tomo.

Apesar de curtinha, esta é novamente uma parte cheia de reviravoltas ou, como se costuma dizer, cheia de plot twists.

♡ No inicio desta 5ª parte encontramo-nos com Pierre que, após a notícia do noivado de Natacha e da morte de Iossif, se encontra desencantado com o mundo. Nem o casamento, nem a maçonaria conseguem trazer-lhe qualquer alegria.
Pierre retoma por isso velhos hábitos, volta a frequentar o clube e a beber, razão pela qual, e para não comprometer a esposa, regressa a Moscovo.

Em Moscovo, Pierre entrega-se ao vinho e à vida libertina, de modo a afogar os sentimentos e questionamentos que o atormentam.

“Frequentava todas as sociedades possíveis, bebia muito, comprava quadros, construía, e principalmente lia.
(…) da leitura passava ao sono, e do sono à tagarelice nas salas de visitas e no clube, e da tagarelice à pândega e às mulheres, e da pândega outra vez à tagarelice, à leitura e ao vinho. Beber vinho tornara-se para ele cada vez mais uma necessidade física e ao mesmo tempo moral. (…) Só se sentia inteiramente bem quando, sem ele mesmo notar como, tendo entornado na sua grande boca vários copos de vinho, sentia no corpo um agradável calor, ternura por todos os seus próximos e a disposição mental para responder de modo superficial a qualquer ideia, sem penetrar na sua essência. Só depois de beber uma garrafa ou duas começava a ficar vagamente consciente de que aquele complicado e horrível nó da vida que antes tanto o horrorizava não era tão horrível como lhe parecera.” (p. 577)

Quem nunca precisou de uma ajudinha servida em copo, para enfrentar as agruras desta vida, não é verdade?

♡ No início desse inverno, também o velho príncipe Bolkónski e Maria se dirigem a Moscovo e é-nos dado a saber que a saúde do príncipe se encontra cada vez mais debilitada, notando-se até alguns sinais de senilidade. Aliado a isso, o príncipe apresenta cada vez mais acessos de fúria, descarregando as suas frustrações na pobre princesa Maria.
Desde a ida para Moscovo que Maria se encontra triste e abatida, uma vez que perdeu o contacto com os seus peregrinos que tanta alegria lhe traziam.
Além disso, Maria passa a encontrar-se pessoalmente com Julie, perdendo assim o prazer de lhe escrever. É também com desgosto que Maria percebe que Julie, tendo perdido os dois irmãos, se tornou única herdeira e, portanto, uma das jovens mais cobiçadas na sociedade moscovita, e que, esse reconhecimento, a tornou uma pessoa fútil, com quem Maria não gostava de privar.
A somar aos desgostos de Maria, acresce o facto do velho príncipe, em jeito de piada, referir que se Andrei se pode voltar a casar, também ele o pode fazer e, com isto, aproximar-se de Mademoiselle Bourienne que, não sendo nada burra, decide aproveitar-se da situação e deixar-se 'seduzir' pelo velho.

♡ Chega então o dia de São Nicolau, o santo onomástico do velho príncipe que, abrindo uma exceção, resolve dar um almoço para um grupo restrito de convidados, entre os quais se encontram Pierre e Boris Drubetskoi.
Num momento a sós, Pierre alerta Maria que Boris apenas de dirigiu a Moscovo em busca de uma noiva rica, estando nesse momento indeciso entre a cortejar a ela ou a Julie Karáguina.

♡ Passando a ver as coisas na perspetiva de Boris, percebemos que, para ele, Julie seria uma esposa mais 'rentável', no entanto, Boris sente-se algo renitente em fazer o pedido.

“… e todos os dias, refletindo consigo mesmo, Boris se dizia que amanhã faria o pedido. Mas na presença de Julie, olhando o rosto e o queixo vermelho dela, quase sempre empoado, os olhos húmidos e a expressão no rosto (…), Boris não conseguia proferir a palavra decisiva; apesar de há muito se considerar já em imaginação o dono das propriedades de Penza e Nijni Nóvgorod (o dote de Julie)” (p. 591)

De forma a forçar um pouco a situação, Julie convida Anatole (o irmão de Hélène) para frequentar a sua casa. Preocupado com a possibilidade de perder a sua oportunidade de noivado para Anatole, Boris resolve-se a fazer o pedido, ficando assim noivo de Julie.

♡ Voltamos depois a acompanhar os Rostov (o conde e as meninas) que, chegando a Moscovo, são recebidos em casa de Maria Dmítrievna, a madrinha de Natacha.

No dia seguinte, aconselhados por Maria Dmítrievna, o conde Rostov e Natacha resolvem visitar o velho príncipe Bolkónski, para se apresentarem. O príncipe recusa-se a receber as visitas que, entretanto, são recebidos por Maria. Maria recebe-os com alguma frieza e distanciamento e, de imediato, antipatiza com Natacha, sendo este sentimento reciproco.

“Desde o primeiro olhar, a princesa Maria não gostou de Natacha. Achou-a demasiado bem vestida, levianamente alegre e vaidosa.” (p. 595)

♡ Posteriormente acompanhamos os Rostov até uma opera, evento no qual se encontra reunida a nata da sociedade moscovita, entre os quais: Boris com a sua noiva Julie, Anna Mikháilovna (a mãe de Boris), Dólokhov, Pierre, Hélène e o irmão Anatole.

Num intervalo entre actos, Hélène apresenta-se a Natacha, elogiando a sua beleza e dizendo que já muito tinha ouvido falar dela. Nesse momento, convida-a a fazer-lhe companhia no seu camarote, o que Natacha aceita.
Uma vez aí chegadas, Hélène apresenta Anatole a Natacha que, de mediato de sente enfeitiçada pelo seu charme e encanto.

No entanto, ficamos a saber que Anatole pode ser tudo, menos encantador... Vivia em Moscovo por ter sido forçado, pelo seu pai, a abandonar Petersburgo, levando uma vida boémia, repleta de vinho e mulheres. Não perdia uma farra ou um baile e vivia constantemente à custa do dinheiro que pedia 'emprestado' a qualquer um.
Para completar o pacote, ficamos a saber que Anatole se casou, dois anos antes, durante a permanência do regimento na Polónia, tendo depois abandonado a esposa.

Uma vez que não resiste a uma 'rapariguinha', apesar de não estar apaixonado, Anatole resolve cortejar Natacha, para se divertir. Assim pede a Hélène que convide os Rostov para um dos serões em sua casa.
Durante o serão, improvisam um baile e Anatole convida Natacha para dançar. Durante a dança, Anatole não se cansa de elogiar Natacha, dizendo que a ama.
É neste momento que percebemos que Natacha ainda é, afinal, uma jovem ingénua porque, estas palavras de Anatole, são suficientes para a fazer acreditar que também se apaixonou, pondo em causa os seus sentimentos pelo príncipe Andrei.

♡ Posteriormente, Anatole escreve uma carta a Natacha afirmando que não pode viver sem Natacha ("Ser amado por si ou morrer. Não tenho outra saída." p. 618) e que, por razões secretas os Rostov nunca aprovariam a sua união. Assim, propõe-lhe fugirem e viverem esse amor sem impedimentos.

No entanto, Sónia encontra e lê essa carta, confrontando Natacha com a situação e questionando-a se ela já teria pensado sobre quais seriam essas razões secretas. Natacha, completamente cega, expulsa Sónia do quarto e escreve uma nota à princesa Maria (que inicialmente lhe enviara uma carta para tentar iniciar amizade com a futura cunhada) dizendo que não havia mais mal-entendidos entre elas, mas que não poderia ser esposa de Andrei, terminando assim o noivado.

♡ Nos dias seguintes Sónia percebe uma alteração no comportamento de Natacha, concluindo que o dia da fuga se aproximava. Sendo encontrada a chorar por Maria Dmítrievna, Sónia acaba por confessar-lhe o sucedido e a razão da sua preocupação.
Maria de imediato tranca Natacha no quarto, dando ordens aos criados para que deixassem entrar os visitantes, mas que logo de seguida fechassem os portões para não os deixar sair. No entanto, Anatole e Dólokhov – que ajudava o amigo – apercebem-se de que algo não está bem e conseguem fugir.

Maria Dmítrievna, de modo a justificar a alteração de comportamento de Natacha (que se encontra apática e chorosa) diz ao conde Rostov que a filha se encontra doente.
Entretanto, e sem saber a quem recorrer, Maria Dmítrievna chama Pierre e, pedindo-lhe segredo, informa-o do ocorrido.

Pierre, que até aí evitara Natacha, fica chocado com o sucedido e dá-lhe a conhecer as razões secretas de Anatole, contando-lhe que ele já é casado.

“Quando Pierre voltou a Moscovo, entregaram-lhe a carta de Maria Dmítrievna, que o chamava a sua casa por um assunto muito importante relacionado com Andrei Bolkónski e com a noiva deste. Pierre evitava Natacha. Parecia-lhe que tinha por ela um sentimento mais forte do que aquele que um homem casado devia ter pela noiva do seu amigo” (p.632)

“Pierre, de ombros levantados e boca aberta, escutava o que Maria Dmítrievna dizia, sem acreditar nos seus ouvidos. A noiva do príncipe Andrei tão amada, essa dantes doce Natacha Rostova, trocar Bolkónski pelo estupido Anatole, já casado (…), e apaixonar-se assim de modo a aceitar fugir com ele! – era uma coisa que Pierre não podia compreender nem imaginar.” (p. 633)

Neste contexto, Maria Dmítrievna, com receio que possa ocorrer um duelo, pede a Pierre que afaste o seu cunhado de Moscovo, pedido que prontamente é acedido.

♡ Entretanto Andrei regressa a casa e logo é informado quer do rompimento do noivado, quer dos rumores de circulam em Moscovo, sobre o rapto da jovem Rostova.
Pierre vai visitar o amigo e, para sua surpresa, encontra-o algo animado a conversar com o pai sobre a guerra.
No entanto, num momento a sós, Andrei entrega a Pierre todas as cartas enviadas por Natacha e pede que lhas devolva, pedindo ainda para que não se volte a falar sobre ela.

Pierre acede ao pedido do amigo, dirigindo-se novamente a casa de Maria Dmítrievna e encontra uma Natacha mais emagrecida, triste, que recentemente se tentara envenenar com arsénico.
Esta visão desperta nele um renovado sentimento de ternura pela jovem Rostova e, terminamos este 2º tomo

“– Se eu não fosse eu, mas o homem mais bonito, mais inteligente e melhor do mundo, e fosse livre, ajoelhava-me neste instante e pedia-lhe a sua mão e o seu amor.
Natacha, pela primeira vez depois de muitos dias, chorou lagrimas de gratidão e de ternura e, lançando um olhar a Pierre, saiu da sala.” (p. 643)

Concluímos assim este 2º tomo com um Pierre tranquilo e acalentado, uma Natacha destroçada, e um Andrei desiludido.

“Parecia a Pierre que aquela estrela correspondia inteiramente ao que havia na sua alma apaziguada e animada, que florescia para uma nova vida” (p. 644)

Esta parte termina novamente um pouco em aberto, deixando o rumo da história aberto a todas as possibilidades.

❤
 
♥ Nota: Os post it cor-de-rosa correspondem a anotações do 1º Tomo e as amarelas a anotações do 2º

sábado, 18 de junho de 2016

#013.07 | Lendo Guerra e Paz ♡ 07 Tomo II – 4ª Parte

Hoje venho falar novamente da leitura de Guerra e Paz, desta vez em relação à 4ª parte do 2º Tomo.

Nesta parte, mais curtinha, acompanhamos de perto a família Rostov e a forma como os problemas financeiros da mesma estão, aos poucos, a levar a um clima de tensão.

♡ Começamos esta 4ª parte junto de Nikolai Rostov e ficamos a saber que, sucedendo a Deníssov, este comanda um esquadrão do regimento de Pavlogrado. Rostov está satisfeito com a sua vida militar, mas, uma carta da mãe, informando-o do noivado de Natacha, bem como das dificuldades financeiras que a família atravessa, fazem-no regressar a casa.
Neste regresso percebemos que Nikolai não vê com bons olhos o enlace de Bolkónski com a irmã, e que esse sentimento é, em parte, partilhado pela mãe.

♡ Depois de se ocupar da parte financeira da família, Nikolai resolve dedicar-se a alguns dos seus prazeres, organizando uma caça aos lobos, para a qual convida um 'tio' afastado (que na verdade é um vizinho) e na qual Natacha e Pétia insistem em participar.

É interessante notar que a caça é vista como uma atividade de gente crescida e, pelas idades de Natacha e Pétia, a presença deles não é muito bem vista. Sabem aquela sensação de ser autorizado a participar em alguma atividade mas não mexas em nada!? Foi essa sensação que tive ao ler sobre a forma como os 'adultos' olhavam para os jovens irmãos que, para poderem participar, tiveram que prometer que não iriam atrapalhar.

Durante a caçada, Rostov trava conhecimento com outro grupo de caçadores, conhecendo Iláguin, um jovem latifundiário cuja família tem um litígio e um processo em tribunal com os Rostov. Não obstante, Iláguin parece ser cordial e amigável com Nikolai e juntos empreendem a caça a uma lebre.

No final da caçada, os jovens Rostov são convidados a cear em casa do tio-vizinho que, apesar de não ser muito abastado, lhes serve as melhores iguarias. Passam o restante serão felizes, a cantar e tocar balalaica, até que o tio, elogiando Natacha, refere que 'só lhe falta arranjar um marido'. Apesar de se manterem animados durante o serão, este comentário levanta em Natacha um ponta de tristeza por se ver afastada de Andrei.

♡ Entretanto os Rostov, temendo pelo sua situação financeira, ponderam a venda de alguns imóveis. Neste momento percebemos que a Condessa Rostova tem outros planos, arquitetando o casamento de Nikolai com uma jovem afortunada. Com esse propósito, entra em contacto com a Karáguina (mãe de Julie, amiga da Maria Bolkónski, lembram-se?), no sentido de combinar um casamento entre os filhos.

Nikolai, ao perceber as intenções da condessa, e não conseguindo esquecer os sentimentos que tem por Sónia confronta a mãe com a situação.

" –  E se eu amasse uma rapariga sem fortuna, a maman exigia-me que sacrificasse o sentimento e a honra pelo dinheiro?" (p. 554)

Depois desse dia, apesar da condessa não voltar a abordar o assunto, o seu comportamento com Sónia muda drasticamente, passando a trata-la com frieza.

♡ Mais tarde, acompanhamos os Rostov nas festas de Natal, onde Tolstoi nos apresenta alguns dos costumes da época.
Ao 3º dia de festas, antes de dormir, Natacha e Sónia fazem uma brincadeira de tentar ver o futuro através de um espelho. Embora Natacha afirme que nada consegue ver, Sónia inventa que viu Andrei deitado, sorrindo para ela, com 'qualquer coisa azul e vermelha'.
Não percebi muito bem o objetivo de Sónia com este comentário, mas, a verdade é que serviu apenas para deixar a prima angustiada.

♡ Depois das festas, Nikolai reúne-se com os pais, confessando-lhes o seu amor por Sónia e a sua vontade de a desposar. A condessa, informa o filho de que este se pode casar, mas que nunca obterá a sua bênção. Já o conde Rostov, embora inicialmente tente dissuadir o filho de um casamento com uma mulher sem fortuna, acaba por reconhecer que, se não estivessem arruinados (em grande parte por sua culpa), não poderia desejar melhor esposa para o filho.
A condessa, indignada com a situação, manda chamar Sónia, acusando-a de ingratidão e de ser intriguista o que leva Nikolai a ameaçar casar-se em segredo.
Natacha acaba por intervir, pondo 'água na fervura' e fazendo a mãe prometer que não voltaria a oprimir a sobrinha e, por outro lado, fazendo Nikolai prometer que não tomaria nenhuma atitude às escondidas dos pais.

Ainda desentendido com os pais, no início de janeiro, Nikolai regressa ao regimento, firme na sua decisão de voltar e casar-se com Sónia.

Com a partida de Nikolai abateu-se um clima de tristeza em casa dos Rostov, fazendo com que a condessa adoeça.
Além disso, e devido ao agravamento da sua situação financeira, o conde Rostov teve que tomar a decisão de vender algumas propriedades em Moscovo.

"A Condessa ficou na aldeia, e o conde, levando consigo Sónia e Natacha, partiu para Moscovo no fim de janeiro" (p. 573)

❤❤❤

Esta parte termina um pouco em aberto, sem sabermos muito bem o que vai seguir-se com os Rostov daí em diante. No entanto, a sua partida para Moscovo promete uma série de acontecimentos novos... fiquei curiosa!

❤

sábado, 16 de abril de 2016

#013.06 | Lendo Guerra e Paz ♡ 06 Tomo II – 3ª Parte

Hoje venho falar mais um bocadinho da leitura de Guerra e Paz, desta vez em relação à 3ª parte do 2º Tomo.
Esta parte centra-se mais nas vivências do Príncipe Andrei, e nas mudanças que se operam no mesmo ao perceber-se novamente apaixonado.

Vamos lá?

♡ No início desta 3ª parte encontramo-nos em 1809 e percebemos que as alianças entre os imperadores Russo e Francês se mantêm fortes, ao ponto de se falar de um eventual casamento entre Napoleão e uma das irmãs do imperador Alexandre, estando por isso a viver-se um período de tréguas.

♡ Nesse período, Andrei viveu na sua aldeia em Bogutchárovo, implementando, sem dificuldade, os empreendimentos que Pierre sonhara para as suas herdades: tornou os camponeses servos em agricultores livres, contratou uma parteira experiente e ainda um sacerdote para ensinar os filhos dos camponeses a ler e a escrever.
Quando não se encontrava nas herdades, Andrei passava o tempo livre na companhia do pai e do filho, aproveitando para se inteirar, através da leitura, dos acontecimentos exteriores do mundo.
Além disso, dedicava-se à elaboração de um projeto de alteração dos regulamentos e estatutos militares.

♡ Para resolver umas questões relacionadas com as suas propriedades de Riazan, o príncipe Andrei precisava encontrar-se com o chefe provincial da nobreza, nada menos que o conde Rostov, tendo, para isso, que dirigir-se a sua casa.
Nessa visita, Andrei depara-se pela primeira vez com Natacha, ficando surpreendido pela sua leveza e juventude.

“De repente, sem saber porquê, o príncipe Andrei sentiu uma dor. O dia estava tão bonito, o Sol tão luminoso, tudo em redor era tão alegre; e aquela rapariguinha magra e bonita nem queria saber da existência dele e estava contente e feliz com a própria vida…” (p. 454)

♡ Depois desta reunião, Andrei desloca-se a Petersburgo, onde decorrem uma serie de reformas políticas, nomeadamente a criação de decretos que viriam a extinguir os graus da corte, bem como substituir toda a ordem judicial, administrativa e financeira da Rússia.
É neste contexto que Andrei é recebido pelo ministro de guerra – o conde Araktchéiev –  para lhe entregar o memorando, no qual trabalhara, sobre o regulamento militar.
As propostas sugeridas por Andrei não foram aprovadas, no entanto, foi-lhe proposto entrar como membro sem vencimento, no Comité para o Regulamento Militar.

Enquanto espera pela notificação sobre a sua inclusão como membro do Comité, Andrei resolve reatar velhos contactos, em especial com personalidades que sabia poderem ajudá-lo de futuro.
Assim, num serão em casa do Conde Kotchubei, Andrei é apresentando a Speránski, comandante-supremo de uma reforma civil que acontecia em Petersburgo. Speránski mostra-se um homem culto, rico em conhecimentos e influências e que, já tendo ouvido falar de Andrei, promete interceder por ele junto ao presidente da comissão para regulamentação do exército.

Andrei vai-se assim aproximando de Speránski, vendo nele um homem inteligente, sensato, enérgico e perseverante, que utilizava o seu poder apenas para o bem da Rússia.

Fruto da influência de Speránski, a verdade é que, passada uma semana, Andrei não só tinha sido aceite como membro da comissão de elaboração do regulamento Militar, como ainda era chefe da comissão da elaboração de leis, passando a trabalhar no código civil.

♡ Surge aqui uma interrupção as aventuras de Andrei para nos inteirarmos do que se passa com Pierre.
Dominado por um sentimento de melancolia, Pierre recebe uma carta de sua esposa, implorando-lhe um encontro e escrevendo sobre a sua tristeza e o seu desejo de lhe dedicar a vida. Pierre é então recordado, por um dos seus irmãos mações, que uma das primeiras regras da maçonaria consistia em perdoar quem se arrependia.
Movido pela busca do autoaperfeiçoamento, Pierre resolve perdoar Hélène e aceitá-la de novo em sua casa.

♡ Regressámos à família Rostov e ficamos a saber que, mesmo mantendo problemas financeiros, estes resolvem voltar a Petersburgo onde, pouco depois da sua chegada, Berg pede Vera em casamento.
Apesar da família Rostov ficar feliz com o pedido e reconhecerem em Berg um bom pretendente, não podem deixar de se preocupar com o valor que terão que deixar de dote, resolvendo então a questão, deixando a Vera um dote de 20 mil rublos, bem como uma nota de promissória no valor de 80 mil.

♡ Boris resolve também visitar os Rostov, surpreendendo-se com o quanto Natacha cresceu e se tornou bela. No entanto, resolve não se aproximar muito da mesma uma vez que “não devia ceder a esse sentimento, porque casar-se com ela, uma rapariga quase sem fortuna, seria fatal para a sua carreira, e reatar as antigas relações sem o objetivo de casamento seria um comportamento ignóbil” (p. 484)
A condessa, apercebendo-se dessa situação, e temendo pela felicidade da filha, pediu a Boris para que não mais os visitasse.

♡ Avançamos até à véspera do réveillon de 1810, quando decorre um baile, para o qual foi convidada a nata da sociedade Petersburguesa, na qual se incluíam os Rostov.
Nesta parte acontece uma das minhas cenas favoritas em que acompanhamos os preparativos das senhoras para a festa, e a preocupação com os seus vestidos e penteados. Tratava-se do primeiro baile formal de Natacha, motivo pelo qual nenhum pormenor pode ser deixado ao acaso.

Para este baile foram também convidados Pierre e Andrei que, inicialmente, não repara em Natacha. No entanto, após ser chamado à atenção por Pierre, Andrei convida Natacha para a sua primeira dança.

“…foi dançar e escolheu Natacha porque Pierre lha indicou, e porque ela foi a primeira das mulheres bonitas em que os seus olhos se detiveram; mas assim que enlaçou aquela cintura fina, flexível, palpitante e ela se movimentou tão próxima dele e sorriu tão perto dele, o vinho do seu encanto subiu-lhe à cabeça” (pp. 495-496)

Durante o baile, Andrei deslumbra-se com a jovem Natacha, ficando novamente surpreendido e encantado com a sua alegria e leveza e dando por si a divagar acerca da mesma:

“… ‘Se ela se aproximar primeiro da prima, e depois de outra dama, será minha mulher’ – disse inesperadamente a si mesmo o príncipe Andrei, olhando para ela. Natacha aproximou-se da prima em primeiro lugar.
Que disparates nos vêm por vezes à cabeça! – pensou o príncipe Andrei. – Mas a verdade é que esta rapariga é tão adorável, tão especial, que em menos de um mês de bailes, estará casada’…” (p. 497)

♡ No dia seguinte, Andrei deveria encontrar-se com Speránski para um almoço informal, com outras figuras de relevo da sociedade Petersburguesa. No entanto, no desenrolar do convívio, Andrei começa a reconhecer em Speránski algumas características até aí desconhecidas e a desiludir-se com o mesmo.

"O príncipe Andrei ouvia com espanto e com a tristeza do desapontamento aquele riso e olhava para Speránski. Parecia-lhe que aquele não era Speránski, era outro homem. Tudo aquilo que antes imaginara de misterioso e atraente em Speránski tornou-se-lhe de repete claro e nada atraente" (p. 499)

Depois deste convívio, no qual reflete sobre a inutilidade do seu trabalho, Andrei decide-se a ir visitar os Rostov, voltando a sentir uma estranha sensação de felicidade na presença de Natacha.

"Porque me agito eu, porque me debato neste quarto apertado, fechado, quando a vida, toda a vida, com todas as alegrias, está aberta para mim?" (P. 502)

“ (...) Pierre tem razão ao dizer que é preciso acreditar na possibilidade da felicidade para se ser feliz, e eu agora acredito. Deixemos os mortos enterrarem os mortos, e enquanto estou vivo é preciso viver e ser feliz" (p. 503)

♡ Posteriormente, Berg e Vera resolvem organizar um jantar em sua casa, convidando alguns conhecidos e amigos, de forma a apresentar-se, como casal, em sociedade.
Nesse convívio comparecem Pierre, Andrei e, obviamente, a família de Vera – os Rostov.
Pelas expressões dos amigos, Pierre percebe que algo se passa e, mais tarde, tenta falar a esse respeito com Andrei.
Neste ponto, fiquei confusa com uma questão que Andrei faz a Pierre...

" - Preciso, preciso falar contigo - disse o príncipe Andrei. - Tu sabes, daquelas nossas luvas de mulher (referia-se as luvas maçónicas que se davam a um irmão que acabava de entrar para que as desse à mulher amada). Eu... Mas não, depois falo contigo..." (p. 507)

Afinal Andrei também é mação? Terei andado tão distraída que não dei por ela antes?
Foi então que, para esclarecer esta questão, resolvi procurar algumas opiniões pela internet.  Pelo que percebi, de acordo com as notas de rodapé de uma edição brasileira, na versão inicial da obra, Andrei era também era iniciado na Franco-maçonaria, tendo essas cenas sido eliminadas na versão final. No entanto, esta alusão à sua iniciação escapou à revisão do autor, mantendo-se por isso este trecho da obra. Acho este aspecto bastante interessante, embora tenha pena de, na minha edição, não virem este tipo de notas explicativas.

♡ No dia seguinte, a convite do Conde Rostov, Andrei vai almoçar com a família, tornando-se mais evidente a sua aproximação com Natacha. Depois desse convívio, Natacha confessa à mãe algum receio em relação a essa aproximação, principalmente por se tratar de um homem viúvo. A condessa acalma a filha, assegurando-lhe que "os casamentos se fazem no céu".

♡ Entretanto Andrei encontra-se com o amigo Pierre, confessando-lhe os seus sentimentos pela jovem Rostova.
Apesar de viver um sentimento ambíguo, por ter um grande carinho por Natacha, Pierre acaba por apoiar o amigo, incentivando-o a declarar-se publicamente.

"Essa rapariga é um tesouro tão grande, tão... É uma rapariga rara... Querido amigo, peço-lhe, não se ponha com filosofias, com dúvidas, case-se, case-se, case-se... E tenho a certeza de que não haverá homem mais feliz." (p. 510)

Após ter tomado a decisão de se casar, Andrei parte para casa, no sentido de obter o consentimento do seu pai.
Apesar de ouvir o filho com aparente calma, o velho Nikolai Bolkósnki enumera alguns entraves ao enlace, nomeadamente a situação financeira dos Rostov, que já por todos era conhecida, a diferença de idades entre Andrei e Natacha e ainda o facto de Andrei ter um filho 'que era pena entregar a uma rapariguinha'. Tendo por base esta argumentação, o conde Bolkósnki pede a Andrei que adie o casamento por um ano e, se ao fim desse tempo os seus sentimentos se mantiverem, aí sim terá o seu consentimento para casar.

Depois da conversa com o pai, Andrei volta a casa dos Rostov, formalizando o pedido de casamento e comunicando ainda o prazo de espera imposto pelo velho príncipe Bolkónski. Apesar de inicialmente estranharem este pedido de adiamento, os Rostov acabam por dar o seu consentimento.

Entretanto, para passar esse ano de interregno, Andrei resolve retirar-se para umas termas, na Suíça, numa tentativa de melhorar a sua saúde.

♡ Depois disto, acompanhamos Maria – a irmã de Andrei – numa carta que esta escreve à sua amiga Julie Karáguina e na qual lhe revela algumas das suas angústias, nomeadamente em relação à partida do irmão, e à preocupação com a saúde do pai e sobrinho. Nessa carta, Maria também ressalta a importância que, para ela, tem a religião enquanto fonte de força para superar essas agruras.

 "...só a religião nos pode, não digo consolar, mas livrar-nos do desespero" (p. 519)

Para Maria, a religião assume-se como principal conforto e alegria, e ficamos aqui a saber que, secretamente, esta deseja juntar-se à 'gente de Deus' e tornar-se também ela uma peregrina, sendo apenas travada pelo dever de cuidar do pai e do sobrinho.

"Mas depois, ao ver o pai e em especial o pequeno Koko, fraquejava na sua intenção, chorava um pouco e sentia que era uma pecadora: amava o pai e o sobrinho mais do que a Deus" (p. 524)

❤❤❤

Sinto que, nesta parte, esmiucei mais o desenrolar da narrativa, indo mais ao pormenor de cada acontecimento. Tratando-se de um diário de leitura, acho importante registar os diferentes momentos, mas, por outro lado, sinto também que falta expor um pouco as minhas reflexões sobre os acontecimentos narrados. Mas tudo bem!

❤

sábado, 26 de março de 2016

#013.05 | Lendo Guerra e Paz ♡ 05 Tomo II – 2ª Parte

Hoje volto para conversar mais um pouquinho sobre a leitura de Guerra e Paz, desta vez sobre a 2ª Parte do Tomo II.

Como já tem vindo a acontecer, esta foi uma parte recheada de acontecimentos e vou, por isso, voltar a organizar-me por tópicos.

Vamos lá?

♡ Depois da discussão com a esposa (na parte anterior, recordam-se?), Pierre parte para Petersburgo e questiona-se sobre a sua vida e as suas decisões.

“O que é mau? O que é bom? O que devemos amar, o que devemos odiar? Porquê viver e o que sou? O que é a vida, o que é a morte? Qual é a força que governa tudo?” (p.377)

Entretanto, Pierre fica retido na estação de Torjok e conhece o mação Ossip Alekséievitch Bazdéiev. Os dois conversam e, aos poucos, Pierre começa a perceber que, talvez na maçonaria, estejam as respostas que ele procura.

“ – A suprema sabedoria e a verdade são como o mais puro líquido que desejamos receber em nós – disse ele. – Poderei eu receber esse líquido puro num vaso impuro e julgar a sua pureza? Só com a minha purificação interior posso manter até certo ponto a pureza do líquido recebido.
– Sim, sim, é verdade! – disse Pierre alegremente.” (p. 381)

Pierre começa a imaginar que a maçonaria poderá ser então o seu caminho para a virtude, salvando-o da depravação em que se encontra e aceita participar de um ritual de iniciação à maçonaria.
Acompanhamos então esse ritual, no qual Pierre aprende quais os objectivos da ordem maçónica, bem como as sete virtudes de um mação (correspondentes aos sete degraus do templo de Salomão).
No final desse ritual, Pierre regressa a casa, sentindo-se renovado e sentindo que se afastara dos seus anteriores hábitos de vida.

No dia seguinte, já em sua casa, Pierre recebe a visita do príncipe Vassíli – o seu sogro – pedindo-lhe que se reconcilie com Hélène. Esta visita não é bem recebida por Pierre, que acaba por expulsar Vassíli de sua casa.
Após este episódio, Pierre deixa avultadas somas de dinheiro aos seus amigos mações e resolve retirar-se para uma das suas propriedades.

O caso do duelo com Dólokhov, aliado á separação de Hélène, fez com que a reputação de Pierre na sociedade Petersburguense voltasse a cair e que este não fosse mais tão bem visto como até aí.

♡ Após estes acontecimentos, regressámos a um dos serões de Anna Pávlovna no qual a anfitriã apresenta Boris Drubetskoi aos seus convidados, entre os quais se encontra Hélène (que entretanto assumiu a postura de coitadinha, vítima num casamento falhado) e que rapidamente se aproxima de Boris.

♡ Entretanto, em casa dos Bolkónski e reencontramos um Andrei desanimado, firmemente decidido a não voltar ao serviço militar e que, entretanto, se mudou para Bogutchárovo – uma das propriedades que deixou de herança ao filho e que fica a cerca de 40 Km da propriedade principal.
Ficamos então a saber que Nikolai Andréitch é uma criança debilitada e que fica muitas vezes ao cuidado de Maria – a sua tia – e de Sávichna, uma ama.

♡ Pierre, sob influência dos preceitos da maçonaria, e todo cheio de boas intenções, resolve criar um guia com medidas a implementar nas suas propriedades. Entre elas constam a libertação dos camponeses – exigindo-lhes menos horas de trabalho – e a libertação de mulheres e crianças dos trabalhos no campo. Pierre toma estas medidas na melhor das intenções, não pensando porém nas repercussões que estas medidas teriam na vida dos camponeses: menos mão-de-obra e menos trabalho implicariam menos alimento, logo, uma condição mais precária.
Além disso, deveriam ser criados hospitais, asilos e escolas. Estando Pierre muitas vezes ausente (e ainda em função da sua falta de experiência), esta gestão foi delegada a administradores que, à sua maneira, foram gerindo as verbas cedidas, muitas vezes em favor dos próprios administradores e não tanto em função dos camponeses.
No entanto, os relatórios enviados pelos administradores eram sempre positivos e favoráveis pelo que Pierre se encantava com o seu poder filantrópico.

“Como é fácil, que pouco esforço é necessário para fazer tanto bem – pensava Pierre –, e que pouco nos preocupamos com isso!
Ficava feliz com a gratidão que lhe era manifestada, mas ficava envergonhado ao recebê-la. Essa gratidão recordava-lhe como estava em condições de fazer ainda mais por aquela gente simples e boa.” (p. 411)

♡ Ao regressar de uma viagem ao Sul, Pierre resolve visitar Andrei e falar-lhe das herdades e do bem que tem realizado, tentando mostrar-lhe que mudou e que é uma pessoa melhor. Apesar de, inicialmente, Andrei se mostrar algo cético e tentar ‘trazer’ Pierre à realidade, logo se deixa contagiar pelo seu entusiasmo e aceita o amigo, nesta sua nova condição.

“– Nem lhe consigo dizer o muito que vivi durante esse tempo. Eu mesmo não me reconheceria.” (p. 413)

♡ Regressamos, entretanto, ao regimento e acompanhamos novamente Rostov e Deníssov num cenário muito triste e devastador.

“O regimento de Pavlogrado tivera apenas dois homens feridos em acção; mas entre a fome e a doença perdeu quase metade dos homens. Nos hospitais era tão certo morrerem que os soldados, doentes com febre e inchados da comida imprópria, preferiam continuar ao serviço, arrastando os pés à força pela linha da frente, a irem para os hospitais.” (p. 429)

Neste contexto miserável, Deníssov desvia algumas provisões destinadas à infantaria, alegando que no seu regimento não comiam há duas semanas. Apesar de bem-intencionado, Deníssov acaba por ser acusado de banditismo, sendo intimado a entregar o comando do esquadrão ao oficial mais graduado, e a comparecer a tribunal no estado maior da divisão.
No entanto, na véspera desse dia, Deníssov é atingido numa coxa por uma bala e aproveita a circunstância para ir para o hospital, recusando a comparência na divisão.

Em Junho é declarada uma trégua e Rostov aproveita para visitar o seu amigo ao hospital.
Nesta parte é-nos descrito o ambiente hospitalar onde, por falta de recursos, os soldados jazem sem cuidado, doentes, feridos e magros. É-nos ainda descrito que, entre os doentes, se encontram alguns mortos, cujos corpos não foram retirados.

Entretanto, na enfermaria dos oficiais, Rostov reencontra Deníssov, sugerindo-lhe que redija um pedido de desculpas e, desta forma, resolver o seu problema.
Após alguma renitência, Deníssov acaba por reconsiderar a sua posição, entregando a Rostov um envelope dirigido ao soberano.

♡ Depois de informar o regimento, Rostov parte então para Tilsit, ao encontro do soberano, ignorando que, nesse momento, se organizava um encontro entre os imperadores francês e russo, tornando esse momento, no menos oportuno para uma audiência com o soberano.
Ao chegar a Tilsit, Rostov encontra-se com Boris que, servindo-se dos seus conhecimentos e influências politicas, se prepara para assistir ao encontro dos sobreanos.
Rostov tenta então que Boris interceda por ele, entregando a carta ao soberano mas percebe, no entanto, que o amigo se demonstra contrariado face a essa ideia.

“O Boris não me quer ajudar e eu também não lhe quero pedir. Isso está decidido – pensava Nikolai. – Entre nós está tudo acabado, mas não me vou embora daqui sem fazer tudo o que puder por Deníssov e, principalmente, sem entregar a carta ao soberano” (p. 443)

Numa tentativa de se encontrar com o soberano, Rostov é interceptado pelo General de cavalaria, que conhecia bem tanto Rostov quanto Deníssov.
Rostov tenta explicar-lhe o propósito da sua visita, acabando por lhe entregar a carta.

Entretanto, quando o soberano se prepara para sair a público, toda a multidão procura aproximar-se para vê-lo.
Rostov percebe que o general de cavalaria se aproxima do soberano, tentando explicar-lhe algo. No entanto ouve-o responder “Não posso, general, e não posso porque a lei é mais forte do que eu”. (p. 466).

Esta parte termina então com um Rostov desanimado, que se junta a outros oficiais para afogar as suas mágoas.

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domingo, 28 de fevereiro de 2016

#013.04 | Lendo Guerra e Paz ♡ 04 Tomo II – 1ª Parte

Hoje venho conversar mais um pouquinho sobre a leitura de Guerra e Paz, desta vez relativamente à 1ª Parte do Tomo II.
Nesta primeira parte aconteceu tanta coisa que acho melhor organizar-me em tópicos.

Vamos lá?

1 ♡ Rostov volta para casa e leva consigo Deníssov que é imediatamente bem acolhido pela família. Neste regresso percebemos que há um ligeiro afastamento entre Nikolai e a sua prima Sónia com a qual este tinha, anteriormente, trocado juras de amor eterno.

“ – Mas é estranho – disse Vera, aproveitando um momento de silêncio – que Sónia e Nikólenka se tratem agora por «você» e como estranhos.” (p.329)

2 ♡  Passamos entretanto para uma cena no Clube Inglês, onde estão reunidos alguns dos membros habituais, bem como alguns convidados – no caso jovens militares – encontrando-se entre eles o Conde Rostov, Nikolai, Dólokhov – oficial do regimento de Semiónovski – e Pierre, que se preparam para realizar um almoço de homenagem ao Príncipe Bagration.
Durante esse almoço começam a circular rumores de que Dólokhov estaria envolvido com Hélène – a esposa de Pierre – e que aparentemente todos saberiam menos ele.

“– Bem, agora à saúde das mulheres bonitas – disse Dólokhov com expressão séria, mas com um sorriso aos cantos da boca, voltando-se para Pierre com a taça. – À saúde das mulheres bonitas, Petrucha, e dos amantes delas – disse.” (p.340)

Perante estas afrontas e determinado a manter a sua honra, Pierre resolve desafiar Dólokhov para um duelo a realizar-se no dia seguinte.
Neste tipo de duelo era comum ter-se um padrinho, sendo que Rostov concordou em ser padrinho de Dólokhov, enquanto Nesvítski, por sua vez, foi padrinho de Pierre.

O duelo decorre em favor de Pierre que consegue atingir – embora não letalmente – Dólokhov.
Rostov leva então o amigo ferido a casa e descobre, para sua grande surpresa que, apesar de todo o aparato frente aos amigos e conhecidos, Dólokhov vive com a sua velha mãe e irmã corcunda, sendo o mais carinhoso filho e irmão.
A partir deste momento a amizade de Rostov com Dólokhov torna-se mais forte, passando este último a frequentar a casa do primeiro.

No seguimento desse duelo Pierre regressa a casa e, confrontando a esposa, percebe que o seu casamento acabou. Para terminar rapidamente com tudo, Pierre acaba por ceder a Hélène grande parte das suas propriedades e parte sozinho para Petersburgo.

3 ♡ Temos aqui mais um corte da narrativa e passamos à casa da família Bolkónski, onde Liza se prepara para dar à luz. Até este ponto ninguém obtivera mais notícias de Andrei, crendo-o morto.

Realizam-se todos os preparativos para o parto, é chamado um médico e entretanto, a parteira Maria Bogdánovna inicia os cuidados necessários.
O parto inicia-se e entretanto apercebem-se que alguém chega ‘pela avenida’. Todos acreditam tratar-se do médico mas, qual é o espanto, quando com ele chega Andrei!
Andrei aproxima-se da esposa e assusta-se ao ler nela uma expressão de desespero.

“Eu amo-vos a todos, não fiz mal a ninguém, porque tenho que sofrer? Ajudem-me” (p. 355)

O obstetra e a parteira continuam o seu trabalho – difícil e demorado – que infelizmente não tem um final feliz.

“…o médico olhou-o com ar desnorteado e, sem dizer palavra, passou ao lado. Uma mulher saiu a correr e, ao ver o príncipe Andrei, hesitou no limiar. Ele entrou no quarto da mulher. Ela jazia morta, na mesma posição que que a vira cinco minutos antes…” (p.355)

Três dias depois realiza-se o funeral de Liza e, durante todo o ritual, fica nela presente a mesma expressão – “Ah, o que fizeram vocês comigo” (p.356) – fazendo crescer em Andrei um sentimento de culpa “que não podia emendar nem esquecer”.

Passados cinco dias, realiza-se o baptizado do pequeno Nikolai Andréitch.

4 ♡ O Outono aproxima-se e regressamos ao núcleo da família Rostov, agora frequentemente acompanhados de Dólokhov e Deníssov.
Enquanto Deníssov continua a ser adorado por todos da família, Dólokhov não consegue conquistar a simpatia de Natacha

“Entre os jovens introduzidos por Rostov, um dos primeiros foi Dólokhov, de quem toda a gente em casa gostava, exceto Natacha. Por causa de Dólokhov ela quase se zangou com o irmão. Insistia em que ele era má pessoa…” (p. 358)

Rostov tenta defender o amigo alegando que “…é preciso vê-lo com a mãe, que coração que ele tem!” (idem)

Natacha não se deixa convencer alegando preferir a companhia de Deníssov (“Gosto do teu Deníssov, embora seja pândego e tudo isso, mas eu gosto dele…”) e que, além disso, Dólokhov estaria a aproximar-se de Sónia.

“ – … E sabes que que ele está apaixonado pela Sónia?
– Que disparate…
– Tenho a certeza, tu vais ver.” (p. 358)

Mais tarde, ao terceiro dia das festas de Natal, Dólokhov pede Sónia em casamento. No entanto, e apesar de ser uma órfã, sem dote, e se encontrar perante um excelente partido, Sónia recusa o pedido, para surpresa de todos e alívio de Rostov.

Entretanto, num baile, Natacha continua a aproximar-se de Deníssov, ficando impressionada com os seus dotes de dançarino.

5 ♡ Humilhado perante a recusa de Sónia, Dólokhov resolve sair da casa dos Rostov.
No entanto, passados três dias, Rostov é convidado por Dólokhov para uma pequena despedida, antes de regressar ao exército.
Quando Rostov chega á ‘festa’ está a decorrer um jogo de cartas, para o qual é convidado a participar.
Apesar das suas reticências em relação ao jogo (“Só os parvos podem jogar à sorte”) Rostov acaba por jogar e, aos poucos, a perder dinheiro para Dólokhov.

É interessante perceber que, conforme Rostov vai perdendo dinheiro, os pensamentos ligados ao amor pela família, e a sensação de ‘como pode isto acontecer comigo?’ voltam a vir-lhe à mente, tal como havia acontecido na batalha de Schöngrabern.

“Nesse momento a vida familiar (…) surgia à sua frente com tanta força, clareza e encanto como se isso pertencesse ao passado distante, uma felicidade perdida e não apreciada.” (p. 366)

“Não fiz nada de mal. Matei alguém, ou ofendi, ou desejei mal a alguém? Porquê esta terrível desgraça?” (p. 368)

O jogo decorre até Rostov ter perdido, para Dólokhov, a soma de 43.000 rublos. Só neste ponto Rostov se apercebe ter sido vítima de uma vingança, por parte de Dólokhov, pelo facto de este ter sido rejeitado por Sónia.

“Ele sabe o que esta perda significa para mim – dizia a si próprio – Como pode desejar a minha perdição? Se ele era meu amigo. Se eu gostava dele…” (p. 368)

“ – Ouve, Rostov – disse Dólokhov, sorrindo claramente e fitando Nikolai nos olhos –, tu conheces o ditado: «Sorte ao amor, azar às cartas.» A tua prima está apaixonada por ti. Eu sei.” (p. 369)

6 ♡ Rostov regressa a casa, onde reina uma ‘atmosfera amorosa e poética’ e onde todos se sentem felizes, assistindo Deníssov e Natacha a cantar e a dançar.

Rostov mantem-se taciturno e procura conselho com o seu pai que, apesar de ter dificuldade em fornecer tão avultada quantia, acaba por ajudar o filho.

Paralelamente, Deníssov pede a mão de Natacha em casamento. A jovem, não cabendo em entusiasmo, vai contar à sua mãe. Natacha é, no entanto, chamada à razão pela sua mãe e percebe que é demasiado nova para se casar, declinando assim o pedido.

Esta primeira parte termina então, com Rostov a saldar a sua dívida e a partir para a Polónia, ao encontro do seu regimento.

Apesar de não ser muito longa em número de páginas (cerca de 50 páginas), achei que esta primeira parte foi interessante para mostrar 'a quantas andam' os personagens da história.
Os capítulos desenrolam-se como se em cenas de novela (cada capítulo referindo-se a um núcleo de personagens, ou a um assunto), encandeando-se uns nos outros.

Estou muito curiosa para dar continuidade à leitura que, apesar da falta de tempo, se vai desenrolando aos poucos.

❤