Autor: Patric Gagne (Estados Unidos da América)
Título Original: Sociopath: a memoir (2024)
Editora: Editorial Presença
Edição: 1ª Edição, Fevereiro 2025 (400 págs.)
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Todos
temos os nossos segredos. Esqueletos no armário. Coisas, mais ou menos
importantes, que guardamos só para nós.
Mas
será que estaríamos dispostos a trazer os nossos segredos à luz do dia? Contar
tudo, ao mais ínfimo detalhe? E se esse “segredo” implicasse revelar que somos…
sociopatas?Foi
o que Patric Gagne se propôs a fazer.
Sobre
a autora
No site da própria autora, esta é apresentada como “escritora,
ex-terapeuta e defensora de pessoas que sofrem de perturbações de personalidade
sociopática, psicopática e antissocial”, referindo que, neste livro, “partilha
a sua luta para compreender a sua própria sociopatia e lançar luz sobre esta
perturbação mental frequentemente difamada e incompreendida”.
Patric formou-se na UCLA e, em seguida, matriculou-se no campus
de Westwood do California Graduate Institute (CGI) – uma escola de
pós-graduação especializada em psicologia, psicanálise e terapia conjugal e
familiar – onde obteve o grau de Mestre em Psicologia.
Posteriormente, concluiu o Doutoramento em Psicologia Clínica
pela Escola de Psicologia Profissional de Chicago. Na sua dissertação — “Seguidores
de Fagin: Sociopatia Secundária e a sua Relação com a Ansiedade” — explorou
a relação entre sociopatia e ansiedade, tornando-se este trabalho a base para
as suas memórias.
Atualmente, vive com o
marido – David – e os dois filhos e é membro da Sociedade para o Estudo
Científico da Psicopatia, trabalhando para expandir a definição de psicopatia,
com o objetivo de a incluir no estatuto de perturbação do espectro do autismo.
Resenha
Patric era ainda muito
pequena quando começou a perceber que era diferente dos outros.
Sem saber exatamente porquê,
sabia que alguma coisa não estava bem e que todos pareciam desconfortáveis na
sua presença. Começou a desconfiar que a razão fosse apenas uma: ela não sentia
as coisas como as outras crianças. Aliás, de forma geral, não sentia
absolutamente nada. E não sentir nada começou a tornar-se insuportável.
É com base nesta premissa
que Patric começa o seu relato, sustentada nas suas primeiras memórias, pelos 6
anos de idade.
O livro segue num arco
biográfico, começando pela infância e juventude, onde Patric começa a perceber
que é diferente, descreve a falta de emoção como uma pressão física
insuportável, e narra os seus primeiros incidentes de comportamento
"desviante", descrevendo a compulsão de cometer pequenos crimes, como
uma libertação da apatia emocional que a sufocava.
Durante a sua
adolescência e início de vida adulta, a sua conduta vai se tornando cada vez
mais periclitante, sendo que a autora argumenta que os seus comportamentos de
risco se assumiam como tentativas de gerar adrenalina, para preencher o vazio
deixado pela falta de emoções. Para ela, o ato ilícito funcionava quase como
uma válvula de escape para aliviar a tal “pressão física insuportável” gerada
pela apatia. A autora detalha, também, o esforço necessário para mimetizar
comportamentos e reações humanas “normais”, aprendido através da observação dos
pares, transformando as suas interações sociais quase numa performance técnica.
A exceção acontece com
David, o seu primeiro namorado – e atual marido – com o qual sempre se sentiu
livre para ser ela mesma, apesar das várias dificuldades que a sua
personalidade imprimiram ao relacionamento.
É durante uma aula de psicologia, na faculdade, que Patric finalmente entra em
contacto com o conceito de sociopatia, reconhecendo-se na sua definição.
Patric lança-se então numa jornada
de autodescoberta e reflexão, narrando a sua vida, os seus estudos e a suas
relações, sob a perspetiva de uma sociopata.
Ao longo do texto, e tento por base
as suas vivências e a sua pesquisa académica, a autora procura destacar a
complexidade da condição sociopática e propõe uma diferenciação importante
entre sociopatia e psicopatia, esclarecendo que são diagnósticos distintos e
que, a não diferenciação entre eles acaba por dificultar o diagnóstico e
tratamento específico para os diferentes transtornos de
personalidade antissocial.
Gagne desafia o estigma de que todos os sociopatas são
assassinos em série à espera de uma oportunidade, apresentando a sociopatia
como um espectro, no qual muitos indivíduos se enquadram, vivendo “entre nós”,
trabalhando, tendo famílias, apesar de processarem o mundo de forma diferente…
mais fria e lógica.
Experiência
de leitura
Confesso que,
para mim, esta foi uma leitura difícil e arrastada. E eu explico porquê…
Narrar esta
história em primeira pessoa seria, talvez, o elemento mais disruptivo e
necessário da obra. Ao assumir a voz da narrativa, e sendo doutorada em
psicologia, a autora tem a possibilidade de fundir o seu relato com a análise
técnica, descrevendo os seus próprios sintomas com a precisão que um observador
externo dificilmente alcançaria, dado habitar o fenómeno que estuda. No
entanto, a autora começa a obra assumindo:
“Sou mentirosa. Roubo. Sou emocionalmente superficial.
Sou quase imune aos remorsos e à culpa. Sou altamente manipuladora. Não quero
saber o que as outras pessoas pensam. Não quero saber da moral. Alias, não quero
saber, em geral. As regras não entram em linha de conta nas minhas decisões. Sou
capaz de quase tudo” (p. 15)
Isto levanta a
questão: esta narradora é confiável? Um sociopata é, por definição, um mestre
da manipulação, tornando legitima a dúvida: estou a ler um relato fiel e a aprender
sobre a sociopatia, ou estou a ser seduzida por uma narrativa cuidadosamente
construída?
Além disso, no
início do primeiro capítulo, a autora afirma:
“Porque há muita coisa da minha infância que é vaga.
Lembro-me de algumas coisas com uma nitidez absoluta (…) Contudo, há outras
coisas que não são tao claras.” (p. 23)
Começar a
narrar a história desde tão nova e com tantos detalhes não é congruente com uma
memória vaga. Desde as expressões faciais, ao tom de voz, ambientação… é tudo
narrado com o mais ínfimo detalhe o que me remetia sempre para a ideia de estar
a ler biografia romanceada (muito romanceada) e não um “relato cru” como tem
sido apresentado.
Só quando
interiorizei que estava a ler um romance e não uma biografia, lá pelo fim do
primeiro terço do livro, é que a leitura começou a fluir mais um pouco.
Ainda assim, não
achei um livro bom.
A escrita é
simples, com momentos repetitivos, e com recurso recorrente a diálogos de forma
a explanar o seu processo de pensamento. Seja as conversas com a terapeuta, com
David ou com uma ou outra amiga, os diálogos são usados de forma a apresentar o
passo a passo do seu processo de autodescoberta e diagnóstico. O método funciona, mas acaba por
tornar-se repetitivo.
Além disso, o facto
de a autora recorrer várias vezes à palavra “mesmo” (estava mesmo
contente, estava mesmo a sentir aquilo…) parece estar a reforçar a
mentira. Sabem quando os miúdos dizem que alguma coisa é mesmo verdade?
É isso.
Existe ainda a
questão da romantização da sociopatia, mostrando uma perspetiva cool do “não se
importar com o que os outros pensam” sendo que, além disso, a autora se refere
aos seus delitos como “comportamentos poucos ortodoxos” ou “maus comportamentos”
quando estamos a falar de roubo ou invasão de propriedade, por exemplo.
Para terminar, o prólogo com a imagem clássica de “último
episódio de novela” foi perfeito para terminar da forma mais cliché possível.
Devo salvaguardar que sim, a explanação sobre a
sociopatia é bem sustentada, são referidas diversas fontes e, para quem tiver
particular interesse na temática, pode ser, efetivamente, uma boa leitura.
Ainda assim, para mim, funcionou como um romance médio.