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sábado, 28 de maio de 2016

#015 | O Grande Meaulnes, de Alain Fournier

Autor: Alain Fournier(país)
Título Original: Le Grand Meaulnes (1913)
Editora: Relógio d'Água
Edição: 1ª Edição, Abril 1987 (286 págs.)
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Hoje vou falar de ‘O Grande Meaulnes’.

Este romance foi escrito em 1913 por Alain-Fournier – pseudónimo de Henri-Alban Fournier – um soldado francês que, apenas um ano após o lançamento do seu único romance, foi morto numa batalha durante a Primeira Guerra Mundial.

Apesar de ser a única obra completa do autor (foram postumamente publicados alguns dos seus escritos, como poemas, ensaios e correspondência) foi o suficiente para ser considerado um clássico da literatura francesa.


Enredo 

A história é-nos contada por François Seurel que recorda quando, aos 15 anos, desenvolveu uma grande amizade com Augustin Meaulnes, dois anos mais velho.

François é filho do Sr. Seurel – um diretor de escola numa aldeia de Sologne, uma região rural de lagos e florestas – e inicia a sua narrativa quando Augustin Meaulnes se junta à sua turma, em Novembro de 1890.

O carisma de Augustin rapidamente faz com que todos os meninos da turma o idolatrem, queiram ser seus amigos e logo o passem a tratar por Grande Meaulnes.

Um dia, sob o pretexto de ir buscar uns visitantes à cidade, Meaulnes leva um cavalo e um carrinho da escola, e desaparece por três dias, sem qualquer explicação.
Quando regressa, cansado e atordoado, parece muito renitente a contar o que se passou nesses três dias de ausência.

No entanto, aos poucos, Meaulnes confia o seu segredo ao seu amigo François, revelando-lhe ter-se deparado, acidentalmente, com uma bela casa antiga – perdida no meio da floresta – onde relata ter ido a uma festa mágica, na qual decorriam os preparativos de um casamento, sendo nessa festa que Meaulnes conhece uma rapariga encantadora - Yvonne de Galais.

No entanto, antes da cerimónia, o casamento é cancelado por desistência da noiva, todos regressam aos seus lares e Meaulnes fica sozinho, sem saber do paradeiro de Yvonne.

Regressando à escola, Meaulnes tenta traçar um plano de forma a reencontrar o caminho para o domínio perdido, bem como a sua adorada Yvonne.



A minha opinião

O facto da história nos ser contada, não por Meaulnes mas por François, e com o desfasamento de alguns anos, envolve toda a historia numa certa nostalgia, como se visualizássemos os acontecimentos através de uma bruma.

Além disso, o próprio cenário campestre, repleto de árvores, sombras e casas envelhecidas, acentua o carácter místico desta história, parecendo, por vezes, que a realidade vivida se funde com o sonho ou a imaginação.

O final do livro deixa-nos com uma sensação agridoce, uma vez que é simultaneamente belo e triste.

Este livro tornou-se muito especial para mim, pela sensação de sonho que proporciona, pela escrita delicada, embora não necessariamente simples.

Além disso, foi para mim extremamente difícil arranjar uma edição (uma vez que, à data da sua aquisição, o livro se encontrava esgotado), e quando finalmente consegui este exemplar, da Relógio D’Água, qual não foi a minha surpresa ao perceber que se tratava de um exemplar novo, numa primeira edição de Abril de 1987… o mês e ano do meu nascimento!
Existe, atualmente, uma nova edição, da Alma dos Livros, publicada com o título O Tempo das Ilusões Perdidas, mas vou preferir manter comigo esta edição mais antiga.

Enfim, não sei que mais palavras usar para demonstrar o quanto gostei deste livro por isso recomendo apenas: leiam-no. Mas leiam-no conscientes que não é difícil perdermo-nos neste bosque de ilusões perdidas.

sábado, 21 de maio de 2016

#014 | Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz

Autor: Afonso Cruz (Portugal)
Título Original: Vamos Comprar um Poeta
Editora: Editorial Caminho
Edição: 1ª Edição, Março 2016 (101 págs.)
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Hoje venho falar de uma das minhas mais recentes leituras: Vamos Comprar um Poeta de Afonso Cruz.

Apesar do tamanhinho, a pequenez deste livro fica-se pelo seu tamanho físico, uma vez que a narrativa, de pequena nada tem.

Este livro conta-nos então a história de uma sociedade imaginária (distópica, para quem gostar do conceito), onde o materialismo controla todos os aspectos das vidas dos seus habitantes.

Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com rigor e exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama.

… mas há estudos que confirmam a hipótese de haver benefício em depositar uns mililitros de saliva na maça do rosto de outra pessoa, por mais estranho e grotesco que isso nos possa parecer.’ (p.10)

Nesta sociedade imaginária a cultura é vista como um disparate e uma inutilidade. Não obstante estes atributos, é comum, nesta sociedade, as famílias terem artistas em vez de animais de estimação e é neste contexto que a protagonista desta história decide adquirir um poeta.
Um poeta não sai caro (excepto se usar óculos, esses são mais caros) nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – e, além disso, entretém-se facilmente com folhas brancas e canetas.

E é na relação desta jovem com o seu poeta que vamos percebendo a importância da poesia, da criatividade e da cultura nas nossas vidas.

Aos poucos, a protagonista da história começa a usar metáforas, a referir-se às coisas em valores aproximados, e a perceber que há mais na vida, além dos números e do rigor.

E é com base nesta premissa aparentemente simples, que Afonso Cruz constrói uma crítica à forma como a cultura é vista pela sociedade, complementando no posfácio a crítica feita ao longo da história, dando-nos uma visão mais concreta (curiosamente, em números) da importância da cultura.

Escusado será falar da escrita de Afonso Cruz que, como toda a gente sabe, é inspiradora, sensível e, tal como a poesia, é capaz de nos abrir uma janela por onde se vê o mar.
Francamente…



sábado, 16 de abril de 2016

#013.06 | Lendo Guerra e Paz ♡ 06 Tomo II – 3ª Parte

Hoje venho falar mais um bocadinho da leitura de Guerra e Paz, desta vez em relação à 3ª parte do 2º Tomo.
Esta parte centra-se mais nas vivências do Príncipe Andrei, e nas mudanças que se operam no mesmo ao perceber-se novamente apaixonado.

Vamos lá?

♡ No início desta 3ª parte encontramo-nos em 1809 e percebemos que as alianças entre os imperadores Russo e Francês se mantêm fortes, ao ponto de se falar de um eventual casamento entre Napoleão e uma das irmãs do imperador Alexandre, estando por isso a viver-se um período de tréguas.

♡ Nesse período, Andrei viveu na sua aldeia em Bogutchárovo, implementando, sem dificuldade, os empreendimentos que Pierre sonhara para as suas herdades: tornou os camponeses servos em agricultores livres, contratou uma parteira experiente e ainda um sacerdote para ensinar os filhos dos camponeses a ler e a escrever.
Quando não se encontrava nas herdades, Andrei passava o tempo livre na companhia do pai e do filho, aproveitando para se inteirar, através da leitura, dos acontecimentos exteriores do mundo.
Além disso, dedicava-se à elaboração de um projeto de alteração dos regulamentos e estatutos militares.

♡ Para resolver umas questões relacionadas com as suas propriedades de Riazan, o príncipe Andrei precisava encontrar-se com o chefe provincial da nobreza, nada menos que o conde Rostov, tendo, para isso, que dirigir-se a sua casa.
Nessa visita, Andrei depara-se pela primeira vez com Natacha, ficando surpreendido pela sua leveza e juventude.

De repente, sem saber porquê, o príncipe Andrei sentiu uma dor. O dia estava tão bonito, o Sol tão luminoso, tudo em redor era tão alegre; e aquela rapariguinha magra e bonita nem queria saber da existência dele e estava contente e feliz com a própria vida…” (p. 454)

♡ Depois desta reunião, Andrei desloca-se a Petersburgo, onde decorrem uma serie de reformas políticas, nomeadamente a criação de decretos que viriam a extinguir os graus da corte, bem como substituir toda a ordem judicial, administrativa e financeira da Rússia.
É neste contexto que Andrei é recebido pelo ministro de guerra – o conde Araktchéiev –  para lhe entregar o memorando, no qual trabalhara, sobre o regulamento militar.
As propostas sugeridas por Andrei não foram aprovadas, no entanto, foi-lhe proposto entrar como membro sem vencimento, no Comité para o Regulamento Militar.

Enquanto espera pela notificação sobre a sua inclusão como membro do Comité, Andrei resolve reatar velhos contactos, em especial com personalidades que sabia poderem ajudá-lo de futuro.
Assim, num serão em casa do Conde Kotchubei, Andrei é apresentando a Speránski, comandante-supremo de uma reforma civil que acontecia em Petersburgo. Speránski mostra-se um homem culto, rico em conhecimentos e influências e que, já tendo ouvido falar de Andrei, promete interceder por ele junto ao presidente da comissão para regulamentação do exército.

Andrei vai-se assim aproximando de Speránski, vendo nele um homem inteligente, sensato, enérgico e perseverante, que utilizava o seu poder apenas para o bem da Rússia.

Fruto da influência de Speránski, a verdade é que, passada uma semana, Andrei não só tinha sido aceite como membro da comissão de elaboração do regulamento Militar, como ainda era chefe da comissão da elaboração de leis, passando a trabalhar no código civil.

♡ Surge aqui uma interrupção as aventuras de Andrei para nos inteirarmos do que se passa com Pierre.
Dominado por um sentimento de melancolia, Pierre recebe uma carta de sua esposa, implorando-lhe um encontro e escrevendo sobre a sua tristeza e o seu desejo de lhe dedicar a vida. Pierre é então recordado, por um dos seus irmãos mações, que uma das primeiras regras da maçonaria consistia em perdoar quem se arrependia.
Movido pela busca do autoaperfeiçoamento, Pierre resolve perdoar Hélène e aceitá-la de novo em sua casa.

♡ Regressámos à família Rostov e ficamos a saber que, mesmo mantendo problemas financeiros, estes resolvem voltar a Petersburgo onde, pouco depois da sua chegada, Berg pede Vera em casamento.
Apesar da família Rostov ficar feliz com o pedido e reconhecerem em Berg um bom pretendente, não podem deixar de se preocupar com o valor que terão que deixar de dote, resolvendo então a questão, deixando a Vera um dote de 20 mil rublos, bem como uma nota de promissória no valor de 80 mil.

♡ Boris resolve também visitar os Rostov, surpreendendo-se com o quanto Natacha cresceu e se tornou bela. No entanto, resolve não se aproximar muito da mesma uma vez que “não devia ceder a esse sentimento, porque casar-se com ela, uma rapariga quase sem fortuna, seria fatal para a sua carreira, e reatar as antigas relações sem o objetivo de casamento seria um comportamento ignóbil” (p. 484)
A condessa, apercebendo-se dessa situação, e temendo pela felicidade da filha, pediu a Boris para que não mais os visitasse.

♡ Avançamos até à véspera do réveillon de 1810, quando decorre um baile, para o qual foi convidada a nata da sociedade Petersburguesa, na qual se incluíam os Rostov.
Nesta parte acontece uma das minhas cenas favoritas em que acompanhamos os preparativos das senhoras para a festa, e a preocupação com os seus vestidos e penteados. Tratava-se do primeiro baile formal de Natacha, motivo pelo qual nenhum pormenor pode ser deixado ao acaso.

Para este baile foram também convidados Pierre e Andrei que, inicialmente, não repara em Natacha. No entanto, após ser chamado à atenção por Pierre, Andrei convida Natacha para a sua primeira dança.

…foi dançar e escolheu Natacha porque Pierre lha indicou, e porque ela foi a primeira das mulheres bonitas em que os seus olhos se detiveram; mas assim que enlaçou aquela cintura fina, flexível, palpitante e ela se movimentou tão próxima dele e sorriu tão perto dele, o vinho do seu encanto subiu-lhe à cabeça” (pp. 495-496)

Durante o baile, Andrei deslumbra-se com a jovem Natacha, ficando novamente surpreendido e encantado com a sua alegria e leveza e dando por si a divagar acerca da mesma:

… ‘Se ela se aproximar primeiro da prima, e depois de outra dama, será minha mulher’ – disse inesperadamente a si mesmo o príncipe Andrei, olhando para ela. Natacha aproximou-se da prima em primeiro lugar.
Que disparates nos vêm por vezes à cabeça! – pensou o príncipe Andrei. – Mas a verdade é que esta rapariga é tão adorável, tão especial, que em menos de um mês de bailes, estará casada’…” (p. 497)

♡ No dia seguinte, Andrei deveria encontrar-se com Speránski para um almoço informal, com outras figuras de relevo da sociedade Petersburguesa. No entanto, no desenrolar do convívio, Andrei começa a reconhecer em Speránski algumas características até aí desconhecidas e a desiludir-se com o mesmo.

"O príncipe Andrei ouvia com espanto e com a tristeza do desapontamento aquele riso e olhava para Speránski. Parecia-lhe que aquele não era Speránski, era outro homem. Tudo aquilo que antes imaginara de misterioso e atraente em Speránski tornou-se-lhe de repete claro e nada atraente" (p. 499)

Depois deste convívio, no qual reflete sobre a inutilidade do seu trabalho, Andrei decide-se a ir visitar os Rostov, voltando a sentir uma estranha sensação de felicidade na presença de Natacha.

"Porque me agito eu, porque me debato neste quarto apertado, fechado, quando a vida, toda a vida, com todas as alegrias, está aberta para mim?" (P. 502)

“ (...) Pierre tem razão ao dizer que é preciso acreditar na possibilidade da felicidade para se ser feliz, e eu agora acredito. Deixemos os mortos enterrarem os mortos, e enquanto estou vivo é preciso viver e ser feliz" (p. 503)

♡ Posteriormente, Berg e Vera resolvem organizar um jantar em sua casa, convidando alguns conhecidos e amigos, de forma a apresentar-se, como casal, em sociedade.
Nesse convívio comparecem Pierre, Andrei e, obviamente, a família de Vera – os Rostov.
Pelas expressões dos amigos, Pierre percebe que algo se passa e, mais tarde, tenta falar a esse respeito com Andrei.
Neste ponto, fiquei confusa com uma questão que Andrei faz a Pierre...

" - Preciso, preciso falar contigo - disse o príncipe Andrei. - Tu sabes, daquelas nossas luvas de mulher (referia-se as luvas maçónicas que se davam a um irmão que acabava de entrar para que as desse à mulher amada). Eu... Mas não, depois falo contigo..." (p. 507)

Afinal Andrei também é mação? Terei andado tão distraída que não dei por ela antes?
Foi então que, para esclarecer esta questão, resolvi procurar algumas opiniões pela internet.  Pelo que percebi, de acordo com as notas de rodapé de uma edição brasileira, na versão inicial da obra, Andrei era também era iniciado na Franco-maçonaria, tendo essas cenas sido eliminadas na versão final. No entanto, esta alusão à sua iniciação escapou à revisão do autor, mantendo-se por isso este trecho da obra. Acho este aspecto bastante interessante, embora tenha pena de, na minha edição, não virem este tipo de notas explicativas.

♡ No dia seguinte, a convite do Conde Rostov, Andrei vai almoçar com a família, tornando-se mais evidente a sua aproximação com Natacha. Depois desse convívio, Natacha confessa à mãe algum receio em relação a essa aproximação, principalmente por se tratar de um homem viúvo. A condessa acalma a filha, assegurando-lhe que "os casamentos se fazem no céu".

♡ Entretanto Andrei encontra-se com o amigo Pierre, confessando-lhe os seus sentimentos pela jovem Rostova.
Apesar de viver um sentimento ambíguo, por ter um grande carinho por Natacha, Pierre acaba por apoiar o amigo, incentivando-o a declarar-se publicamente.

"Essa rapariga é um tesouro tão grande, tão... É uma rapariga rara... Querido amigo, peço-lhe, não se ponha com filosofias, com dúvidas, case-se, case-se, case-se... E tenho a certeza de que não haverá homem mais feliz." (p. 510)

Após ter tomado a decisão de se casar, Andrei parte para casa, no sentido de obter o consentimento do seu pai.
Apesar de ouvir o filho com aparente calma, o velho Nikolai Bolkósnki enumera alguns entraves ao enlace, nomeadamente a situação financeira dos Rostov, que já por todos era conhecida, a diferença de idades entre Andrei e Natacha e ainda o facto de Andrei ter um filho 'que era pena entregar a uma rapariguinha'. Tendo por base esta argumentação, o conde Bolkósnki pede a Andrei que adie o casamento por um ano e, se ao fim desse tempo os seus sentimentos se mantiverem, aí sim terá o seu consentimento para casar.

Depois da conversa com o pai, Andrei volta a casa dos Rostov, formalizando o pedido de casamento e comunicando ainda o prazo de espera imposto pelo velho príncipe Bolkónski. Apesar de inicialmente estranharem este pedido de adiamento, os Rostov acabam por dar o seu consentimento.

Entretanto, para passar esse ano de interregno, Andrei resolve retirar-se para umas termas, na Suíça, numa tentativa de melhorar a sua saúde.

♡ Depois disto, acompanhamos Maria – a irmã de Andrei – numa carta que esta escreve à sua amiga Julie Karáguina e na qual lhe revela algumas das suas angústias, nomeadamente em relação à partida do irmão, e à preocupação com a saúde do pai e sobrinho. Nessa carta, Maria também ressalta a importância que, para ela, tem a religião enquanto fonte de força para superar essas agruras.

 "...só a religião nos pode, não digo consolar, mas livrar-nos do desespero" (p. 519)

Para Maria, a religião assume-se como principal conforto e alegria, e ficamos aqui a saber que, secretamente, esta deseja juntar-se à 'gente de Deus' e tornar-se também ela uma peregrina, sendo apenas travada pelo dever de cuidar do pai e do sobrinho.

"Mas depois, ao ver o pai e em especial o pequeno Koko, fraquejava na sua intenção, chorava um pouco e sentia que era uma pecadora: amava o pai e o sobrinho mais do que a Deus" (p. 524)


Sinto que, nesta parte, esmiucei mais o desenrolar da narrativa, indo mais ao pormenor de cada acontecimento. Tratando-se de um diário de leitura, acho importante registar os diferentes momentos, mas, por outro lado, sinto também que falta expor um pouco as minhas reflexões sobre os acontecimentos narrados. Mas tudo bem!

sábado, 26 de março de 2016

#013.05 | Lendo Guerra e Paz ♡ 05 Tomo II – 2ª Parte

Hoje volto para conversar mais um pouquinho sobre a leitura de Guerra e Paz, desta vez sobre a 2ª Parte do Tomo II.

Como já tem vindo a acontecer, esta foi uma parte recheada de acontecimentos e vou, por isso, voltar a organizar-me por tópicos.

Vamos lá?

♡ Depois da discussão com a esposa (na parte anterior, recordam-se?), Pierre parte para Petersburgo e questiona-se sobre a sua vida e as suas decisões.

O que é mau? O que é bom? O que devemos amar, o que devemos odiar? Porquê viver e o que sou? O que é a vida, o que é a morte? Qual é a força que governa tudo?” (p.377)

Entretanto, Pierre fica retido na estação de Torjok e conhece o mação Ossip Alekséievitch Bazdéiev. Os dois conversam e, aos poucos, Pierre começa a perceber que, talvez na maçonaria, estejam as respostas que ele procura.

– A suprema sabedoria e a verdade são como o mais puro líquido que desejamos receber em nós – disse ele. – Poderei eu receber esse líquido puro num vaso impuro e julgar a sua pureza? Só com a minha purificação interior posso manter até certo ponto a pureza do líquido recebido.
– Sim, sim, é verdade! – disse Pierre alegremente.” (p. 381)

Pierre começa a imaginar que a maçonaria poderá ser então o seu caminho para a virtude, salvando-o da depravação em que se encontra e aceita participar de um ritual de iniciação à maçonaria.
Acompanhamos então esse ritual, no qual Pierre aprende quais os objectivos da ordem maçónica, bem como as sete virtudes de um mação (correspondentes aos sete degraus do templo de Salomão).
No final desse ritual, Pierre regressa a casa, sentindo-se renovado e sentindo que se afastara dos seus anteriores hábitos de vida.

No dia seguinte, já em sua casa, Pierre recebe a visita do príncipe Vassíli – o seu sogro – pedindo-lhe que se reconcilie com Hélène. Esta visita não é bem recebida por Pierre, que acaba por expulsar Vassíli de sua casa.
Após este episódio, Pierre deixa avultadas somas de dinheiro aos seus amigos mações e resolve retirar-se para uma das suas propriedades.

O caso do duelo com Dólokhov, aliado á separação de Hélène, fez com que a reputação de Pierre na sociedade Petersburguense voltasse a cair e que este não fosse mais tão bem visto como até aí.

♡ Após estes acontecimentos, regressámos a um dos serões de Anna Pávlovna no qual a anfitriã apresenta Boris Drubetskoi aos seus convidados, entre os quais se encontra Hélène (que entretanto assumiu a postura de coitadinha, vítima num casamento falhado) e que rapidamente se aproxima de Boris.

♡ Entretanto, em casa dos Bolkónski e reencontramos um Andrei desanimado, firmemente decidido a não voltar ao serviço militar e que, entretanto, se mudou para Bogutchárovo – uma das propriedades que deixou de herança ao filho e que fica a cerca de 40 Km da propriedade principal.
Ficamos então a saber que Nikolai Andréitch é uma criança debilitada e que fica muitas vezes ao cuidado de Maria – a sua tia – e de Sávichna, uma ama.

♡ Pierre, sob influência dos preceitos da maçonaria, e todo cheio de boas intenções, resolve criar um guia com medidas a implementar nas suas propriedades. Entre elas constam a libertação dos camponeses – exigindo-lhes menos horas de trabalho – e a libertação de mulheres e crianças dos trabalhos no campo. Pierre toma estas medidas na melhor das intenções, não pensando porém nas repercussões que estas medidas teriam na vida dos camponeses: menos mão-de-obra e menos trabalho implicariam menos alimento, logo, uma condição mais precária.
Além disso, deveriam ser criados hospitais, asilos e escolas. Estando Pierre muitas vezes ausente (e ainda em função da sua falta de experiência), esta gestão foi delegada a administradores que, à sua maneira, foram gerindo as verbas cedidas, muitas vezes em favor dos próprios administradores e não tanto em função dos camponeses.
No entanto, os relatórios enviados pelos administradores eram sempre positivos e favoráveis pelo que Pierre se encantava com o seu poder filantrópico.

Como é fácil, que pouco esforço é necessário para fazer tanto bem – pensava Pierre –, e que pouco nos preocupamos com isso!
Ficava feliz com a gratidão que lhe era manifestada, mas ficava envergonhado ao recebê-la. Essa gratidão recordava-lhe como estava em condições de fazer ainda mais por aquela gente simples e boa.” (p. 411)

♡ Ao regressar de uma viagem ao Sul, Pierre resolve visitar Andrei e falar-lhe das herdades e do bem que tem realizado, tentando mostrar-lhe que mudou e que é uma pessoa melhor. Apesar de, inicialmente, Andrei se mostrar algo cético e tentar ‘trazer’ Pierre à realidade, logo se deixa contagiar pelo seu entusiasmo e aceita o amigo, nesta sua nova condição.

“– Nem lhe consigo dizer o muito que vivi durante esse tempo. Eu mesmo não me reconheceria.” (p. 413)

♡ Regressamos, entretanto, ao regimento e acompanhamos novamente Rostov e Deníssov num cenário muito triste e devastador.

O regimento de Pavlogrado tivera apenas dois homens feridos em acção; mas entre a fome e a doença perdeu quase metade dos homens. Nos hospitais era tão certo morrerem que os soldados, doentes com febre e inchados da comida imprópria, preferiam continuar ao serviço, arrastando os pés à força pela linha da frente, a irem para os hospitais.” (p. 429)

Neste contexto miserável, Deníssov desvia algumas provisões destinadas à infantaria, alegando que no seu regimento não comiam há duas semanas. Apesar de bem-intencionado, Deníssov acaba por ser acusado de banditismo, sendo intimado a entregar o comando do esquadrão ao oficial mais graduado, e a comparecer a tribunal no estado maior da divisão.
No entanto, na véspera desse dia, Deníssov é atingido numa coxa por uma bala e aproveita a circunstância para ir para o hospital, recusando a comparência na divisão.

Em Junho é declarada uma trégua e Rostov aproveita para visitar o seu amigo ao hospital.
Nesta parte é-nos descrito o ambiente hospitalar onde, por falta de recursos, os soldados jazem sem cuidado, doentes, feridos e magros. É-nos ainda descrito que, entre os doentes, se encontram alguns mortos, cujos corpos não foram retirados.

Entretanto, na enfermaria dos oficiais, Rostov reencontra Deníssov, sugerindo-lhe que redija um pedido de desculpas e, desta forma, resolver o seu problema.
Após alguma renitência, Deníssov acaba por reconsiderar a sua posição, entregando a Rostov um envelope dirigido ao soberano.

♡ Depois de informar o regimento, Rostov parte então para Tilsit, ao encontro do soberano, ignorando que, nesse momento, se organizava um encontro entre os imperadores francês e russo, tornando esse momento, no menos oportuno para uma audiência com o soberano.
Ao chegar a Tilsit, Rostov encontra-se com Boris que, servindo-se dos seus conhecimentos e influências politicas, se prepara para assistir ao encontro dos sobreanos.
Rostov tenta então que Boris interceda por ele, entregando a carta ao soberano mas percebe, no entanto, que o amigo se demonstra contrariado face a essa ideia.

O Boris não me quer ajudar e eu também não lhe quero pedir. Isso está decidido – pensava Nikolai. – Entre nós está tudo acabado, mas não me vou embora daqui sem fazer tudo o que puder por Deníssov e, principalmente, sem entregar a carta ao soberano” (p. 443)

Numa tentativa de se encontrar com o soberano, Rostov é interceptado pelo General de cavalaria, que conhecia bem tanto Rostov quanto Deníssov.
Rostov tenta explicar-lhe o propósito da sua visita, acabando por lhe entregar a carta.

Entretanto, quando o soberano se prepara para sair a público, toda a multidão procura aproximar-se para vê-lo.
Rostov percebe que o general de cavalaria se aproxima do soberano, tentando explicar-lhe algo. No entanto ouve-o responder “Não posso, general, e não posso porque a lei é mais forte do que eu”. (p. 466).

Esta parte termina então com um Rostov desanimado, que se junta a outros oficiais para afogar as suas mágoas.