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sábado, 23 de julho de 2016

#013.08 | Lendo Guerra e Paz ♡ 08 Tomo II – 5ª Parte

Hoje venho continuar o meu diário de leitura de Guerra e Paz, desta vez em relação à 5ª (e última) parte do 2º Tomo.

Apesar de curtinha, esta é novamente uma parte cheia de reviravoltas ou, como se costuma dizer, cheia de plot twists.

♡ No inicio desta 5ª parte encontramo-nos com Pierre que, após a notícia do noivado de Natacha e da morte de Iossif, se encontra desencantado com o mundo. Nem o casamento, nem a maçonaria conseguem trazer-lhe qualquer alegria.
Pierre retoma por isso velhos hábitos, volta a frequentar o clube e a beber, razão pela qual, e para não comprometer a esposa, regressa a Moscovo.

Em Moscovo, Pierre entrega-se ao vinho e à vida libertina, de modo a afogar os sentimentos e questionamentos que o atormentam.

“Frequentava todas as sociedades possíveis, bebia muito, comprava quadros, construía, e principalmente lia.
(…) da leitura passava ao sono, e do sono à tagarelice nas salas de visitas e no clube, e da tagarelice à pândega e às mulheres, e da pândega outra vez à tagarelice, à leitura e ao vinho. Beber vinho tornara-se para ele cada vez mais uma necessidade física e ao mesmo tempo moral. (…) Só se sentia inteiramente bem quando, sem ele mesmo notar como, tendo entornado na sua grande boca vários copos de vinho, sentia no corpo um agradável calor, ternura por todos os seus próximos e a disposição mental para responder de modo superficial a qualquer ideia, sem penetrar na sua essência. Só depois de beber uma garrafa ou duas começava a ficar vagamente consciente de que aquele complicado e horrível nó da vida que antes tanto o horrorizava não era tão horrível como lhe parecera.” (p. 577)

Quem nunca precisou de uma ajudinha servida em copo, para enfrentar as agruras desta vida, não é verdade?

♡ No início desse inverno, também o velho príncipe Bolkónski e Maria se dirigem a Moscovo e é-nos dado a saber que a saúde do príncipe se encontra cada vez mais debilitada, notando-se até alguns sinais de senilidade. Aliado a isso, o príncipe apresenta cada vez mais acessos de fúria, descarregando as suas frustrações na pobre princesa Maria.
Desde a ida para Moscovo que Maria se encontra triste e abatida, uma vez que perdeu o contacto com os seus peregrinos que tanta alegria lhe traziam.
Além disso, Maria passa a encontrar-se pessoalmente com Julie, perdendo assim o prazer de lhe escrever. É também com desgosto que Maria percebe que Julie, tendo perdido os dois irmãos, se tornou única herdeira e, portanto, uma das jovens mais cobiçadas na sociedade moscovita, e que, esse reconhecimento, a tornou uma pessoa fútil, com quem Maria não gostava de privar.
A somar aos desgostos de Maria, acresce o facto do velho príncipe, em jeito de piada, referir que se Andrei se pode voltar a casar, também ele o pode fazer e, com isto, aproximar-se de Mademoiselle Bourienne que, não sendo nada burra, decide aproveitar-se da situação e deixar-se 'seduzir' pelo velho.

♡ Chega então o dia de São Nicolau, o santo onomástico do velho príncipe que, abrindo uma exceção, resolve dar um almoço para um grupo restrito de convidados, entre os quais se encontram Pierre e Boris Drubetskoi.
Num momento a sós, Pierre alerta Maria que Boris apenas de dirigiu a Moscovo em busca de uma noiva rica, estando nesse momento indeciso entre a cortejar a ela ou a Julie Karáguina.

♡ Passando a ver as coisas na perspetiva de Boris, percebemos que, para ele, Julie seria uma esposa mais 'rentável', no entanto, Boris sente-se algo renitente em fazer o pedido.

“… e todos os dias, refletindo consigo mesmo, Boris se dizia que amanhã faria o pedido. Mas na presença de Julie, olhando o rosto e o queixo vermelho dela, quase sempre empoado, os olhos húmidos e a expressão no rosto (…), Boris não conseguia proferir a palavra decisiva; apesar de há muito se considerar já em imaginação o dono das propriedades de Penza e Nijni Nóvgorod (o dote de Julie)” (p. 591)

De forma a forçar um pouco a situação, Julie convida Anatole (o irmão de Hélène) para frequentar a sua casa. Preocupado com a possibilidade de perder a sua oportunidade de noivado para Anatole, Boris resolve-se a fazer o pedido, ficando assim noivo de Julie.

♡ Voltamos depois a acompanhar os Rostov (o conde e as meninas) que, chegando a Moscovo, são recebidos em casa de Maria Dmítrievna, a madrinha de Natacha.

No dia seguinte, aconselhados por Maria Dmítrievna, o conde Rostov e Natacha resolvem visitar o velho príncipe Bolkónski, para se apresentarem. O príncipe recusa-se a receber as visitas que, entretanto, são recebidos por Maria. Maria recebe-os com alguma frieza e distanciamento e, de imediato, antipatiza com Natacha, sendo este sentimento reciproco.

“Desde o primeiro olhar, a princesa Maria não gostou de Natacha. Achou-a demasiado bem vestida, levianamente alegre e vaidosa.” (p. 595)

♡ Posteriormente acompanhamos os Rostov até uma opera, evento no qual se encontra reunida a nata da sociedade moscovita, entre os quais: Boris com a sua noiva Julie, Anna Mikháilovna (a mãe de Boris), Dólokhov, Pierre, Hélène e o irmão Anatole.

Num intervalo entre actos, Hélène apresenta-se a Natacha, elogiando a sua beleza e dizendo que já muito tinha ouvido falar dela. Nesse momento, convida-a a fazer-lhe companhia no seu camarote, o que Natacha aceita.
Uma vez aí chegadas, Hélène apresenta Anatole a Natacha que, de mediato de sente enfeitiçada pelo seu charme e encanto.

No entanto, ficamos a saber que Anatole pode ser tudo, menos encantador... Vivia em Moscovo por ter sido forçado, pelo seu pai, a abandonar Petersburgo, levando uma vida boémia, repleta de vinho e mulheres. Não perdia uma farra ou um baile e vivia constantemente à custa do dinheiro que pedia 'emprestado' a qualquer um.
Para completar o pacote, ficamos a saber que Anatole se casou, dois anos antes, durante a permanência do regimento na Polónia, tendo depois abandonado a esposa.

Uma vez que não resiste a uma 'rapariguinha', apesar de não estar apaixonado, Anatole resolve cortejar Natacha, para se divertir. Assim pede a Hélène que convide os Rostov para um dos serões em sua casa.
Durante o serão, improvisam um baile e Anatole convida Natacha para dançar. Durante a dança, Anatole não se cansa de elogiar Natacha, dizendo que a ama.
É neste momento que percebemos que Natacha ainda é, afinal, uma jovem ingénua porque, estas palavras de Anatole, são suficientes para a fazer acreditar que também se apaixonou, pondo em causa os seus sentimentos pelo príncipe Andrei.

♡ Posteriormente, Anatole escreve uma carta a Natacha afirmando que não pode viver sem Natacha ("Ser amado por si ou morrer. Não tenho outra saída." p. 618) e que, por razões secretas os Rostov nunca aprovariam a sua união. Assim, propõe-lhe fugirem e viverem esse amor sem impedimentos.

No entanto, Sónia encontra e lê essa carta, confrontando Natacha com a situação e questionando-a se ela já teria pensado sobre quais seriam essas razões secretas. Natacha, completamente cega, expulsa Sónia do quarto e escreve uma nota à princesa Maria (que inicialmente lhe enviara uma carta para tentar iniciar amizade com a futura cunhada) dizendo que não havia mais mal-entendidos entre elas, mas que não poderia ser esposa de Andrei, terminando assim o noivado.

♡ Nos dias seguintes Sónia percebe uma alteração no comportamento de Natacha, concluindo que o dia da fuga se aproximava. Sendo encontrada a chorar por Maria Dmítrievna, Sónia acaba por confessar-lhe o sucedido e a razão da sua preocupação.
Maria de imediato tranca Natacha no quarto, dando ordens aos criados para que deixassem entrar os visitantes, mas que logo de seguida fechassem os portões para não os deixar sair. No entanto, Anatole e Dólokhov – que ajudava o amigo – apercebem-se de que algo não está bem e conseguem fugir.

Maria Dmítrievna, de modo a justificar a alteração de comportamento de Natacha (que se encontra apática e chorosa) diz ao conde Rostov que a filha se encontra doente.
Entretanto, e sem saber a quem recorrer, Maria Dmítrievna chama Pierre e, pedindo-lhe segredo, informa-o do ocorrido.

Pierre, que até aí evitara Natacha, fica chocado com o sucedido e dá-lhe a conhecer as razões secretas de Anatole, contando-lhe que ele já é casado.

“Quando Pierre voltou a Moscovo, entregaram-lhe a carta de Maria Dmítrievna, que o chamava a sua casa por um assunto muito importante relacionado com Andrei Bolkónski e com a noiva deste. Pierre evitava Natacha. Parecia-lhe que tinha por ela um sentimento mais forte do que aquele que um homem casado devia ter pela noiva do seu amigo” (p.632)

“Pierre, de ombros levantados e boca aberta, escutava o que Maria Dmítrievna dizia, sem acreditar nos seus ouvidos. A noiva do príncipe Andrei tão amada, essa dantes doce Natacha Rostova, trocar Bolkónski pelo estupido Anatole, já casado (…), e apaixonar-se assim de modo a aceitar fugir com ele! – era uma coisa que Pierre não podia compreender nem imaginar.” (p. 633)

Neste contexto, Maria Dmítrievna, com receio que possa ocorrer um duelo, pede a Pierre que afaste o seu cunhado de Moscovo, pedido que prontamente é acedido.

♡ Entretanto Andrei regressa a casa e logo é informado quer do rompimento do noivado, quer dos rumores de circulam em Moscovo, sobre o rapto da jovem Rostova.
Pierre vai visitar o amigo e, para sua surpresa, encontra-o algo animado a conversar com o pai sobre a guerra.
No entanto, num momento a sós, Andrei entrega a Pierre todas as cartas enviadas por Natacha e pede que lhas devolva, pedindo ainda para que não se volte a falar sobre ela.

Pierre acede ao pedido do amigo, dirigindo-se novamente a casa de Maria Dmítrievna e encontra uma Natacha mais emagrecida, triste, que recentemente se tentara envenenar com arsénico.
Esta visão desperta nele um renovado sentimento de ternura pela jovem Rostova e, terminamos este 2º tomo

“– Se eu não fosse eu, mas o homem mais bonito, mais inteligente e melhor do mundo, e fosse livre, ajoelhava-me neste instante e pedia-lhe a sua mão e o seu amor.
Natacha, pela primeira vez depois de muitos dias, chorou lagrimas de gratidão e de ternura e, lançando um olhar a Pierre, saiu da sala.” (p. 643)

Concluímos assim este 2º tomo com um Pierre tranquilo e acalentado, uma Natacha destroçada, e um Andrei desiludido.

“Parecia a Pierre que aquela estrela correspondia inteiramente ao que havia na sua alma apaziguada e animada, que florescia para uma nova vida” (p. 644)

Esta parte termina novamente um pouco em aberto, deixando o rumo da história aberto a todas as possibilidades.

❤
 
♥ Nota: Os post it cor-de-rosa correspondem a anotações do 1º Tomo e as amarelas a anotações do 2º

sábado, 18 de junho de 2016

#013.07 | Lendo Guerra e Paz ♡ 07 Tomo II – 4ª Parte

Hoje venho falar novamente da leitura de Guerra e Paz, desta vez em relação à 4ª parte do 2º Tomo.

Nesta parte, mais curtinha, acompanhamos de perto a família Rostov e a forma como os problemas financeiros da mesma estão, aos poucos, a levar a um clima de tensão.

♡ Começamos esta 4ª parte junto de Nikolai Rostov e ficamos a saber que, sucedendo a Deníssov, este comanda um esquadrão do regimento de Pavlogrado. Rostov está satisfeito com a sua vida militar, mas, uma carta da mãe, informando-o do noivado de Natacha, bem como das dificuldades financeiras que a família atravessa, fazem-no regressar a casa.
Neste regresso percebemos que Nikolai não vê com bons olhos o enlace de Bolkónski com a irmã, e que esse sentimento é, em parte, partilhado pela mãe.

♡ Depois de se ocupar da parte financeira da família, Nikolai resolve dedicar-se a alguns dos seus prazeres, organizando uma caça aos lobos, para a qual convida um 'tio' afastado (que na verdade é um vizinho) e na qual Natacha e Pétia insistem em participar.

É interessante notar que a caça é vista como uma atividade de gente crescida e, pelas idades de Natacha e Pétia, a presença deles não é muito bem vista. Sabem aquela sensação de ser autorizado a participar em alguma atividade mas não mexas em nada!? Foi essa sensação que tive ao ler sobre a forma como os 'adultos' olhavam para os jovens irmãos que, para poderem participar, tiveram que prometer que não iriam atrapalhar.

Durante a caçada, Rostov trava conhecimento com outro grupo de caçadores, conhecendo Iláguin, um jovem latifundiário cuja família tem um litígio e um processo em tribunal com os Rostov. Não obstante, Iláguin parece ser cordial e amigável com Nikolai e juntos empreendem a caça a uma lebre.

No final da caçada, os jovens Rostov são convidados a cear em casa do tio-vizinho que, apesar de não ser muito abastado, lhes serve as melhores iguarias. Passam o restante serão felizes, a cantar e tocar balalaica, até que o tio, elogiando Natacha, refere que 'só lhe falta arranjar um marido'. Apesar de se manterem animados durante o serão, este comentário levanta em Natacha um ponta de tristeza por se ver afastada de Andrei.

♡ Entretanto os Rostov, temendo pelo sua situação financeira, ponderam a venda de alguns imóveis. Neste momento percebemos que a Condessa Rostova tem outros planos, arquitetando o casamento de Nikolai com uma jovem afortunada. Com esse propósito, entra em contacto com a Karáguina (mãe de Julie, amiga da Maria Bolkónski, lembram-se?), no sentido de combinar um casamento entre os filhos.

Nikolai, ao perceber as intenções da condessa, e não conseguindo esquecer os sentimentos que tem por Sónia confronta a mãe com a situação.

" –  E se eu amasse uma rapariga sem fortuna, a maman exigia-me que sacrificasse o sentimento e a honra pelo dinheiro?" (p. 554)

Depois desse dia, apesar da condessa não voltar a abordar o assunto, o seu comportamento com Sónia muda drasticamente, passando a trata-la com frieza.

♡ Mais tarde, acompanhamos os Rostov nas festas de Natal, onde Tolstoi nos apresenta alguns dos costumes da época.
Ao 3º dia de festas, antes de dormir, Natacha e Sónia fazem uma brincadeira de tentar ver o futuro através de um espelho. Embora Natacha afirme que nada consegue ver, Sónia inventa que viu Andrei deitado, sorrindo para ela, com 'qualquer coisa azul e vermelha'.
Não percebi muito bem o objetivo de Sónia com este comentário, mas, a verdade é que serviu apenas para deixar a prima angustiada.

♡ Depois das festas, Nikolai reúne-se com os pais, confessando-lhes o seu amor por Sónia e a sua vontade de a desposar. A condessa, informa o filho de que este se pode casar, mas que nunca obterá a sua bênção. Já o conde Rostov, embora inicialmente tente dissuadir o filho de um casamento com uma mulher sem fortuna, acaba por reconhecer que, se não estivessem arruinados (em grande parte por sua culpa), não poderia desejar melhor esposa para o filho.
A condessa, indignada com a situação, manda chamar Sónia, acusando-a de ingratidão e de ser intriguista o que leva Nikolai a ameaçar casar-se em segredo.
Natacha acaba por intervir, pondo 'água na fervura' e fazendo a mãe prometer que não voltaria a oprimir a sobrinha e, por outro lado, fazendo Nikolai prometer que não tomaria nenhuma atitude às escondidas dos pais.

Ainda desentendido com os pais, no início de janeiro, Nikolai regressa ao regimento, firme na sua decisão de voltar e casar-se com Sónia.

Com a partida de Nikolai abateu-se um clima de tristeza em casa dos Rostov, fazendo com que a condessa adoeça.
Além disso, e devido ao agravamento da sua situação financeira, o conde Rostov teve que tomar a decisão de vender algumas propriedades em Moscovo.

"A Condessa ficou na aldeia, e o conde, levando consigo Sónia e Natacha, partiu para Moscovo no fim de janeiro" (p. 573)

❤❤❤

Esta parte termina um pouco em aberto, sem sabermos muito bem o que vai seguir-se com os Rostov daí em diante. No entanto, a sua partida para Moscovo promete uma série de acontecimentos novos... fiquei curiosa!

❤

sábado, 28 de maio de 2016

#015 | O Grande Meaulnes, de Alain Fournier

Autor: Alain Fournier(país)
Título Original: Le Grand Meaulnes (1913)
Editora: Relógio d'Água
Edição: 1ª Edição, Abril 1987 (286 págs.)
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Hoje vou falar de ‘O Grande Meaulnes’.

Este romance foi escrito em 1913 por Alain-Fournier – pseudónimo de Henri-Alban Fournier – um soldado francês que, apenas um ano após o lançamento do seu único romance, foi morto numa batalha durante a Primeira Guerra Mundial.

Apesar de ser a única obra completa do autor (foram postumamente publicados alguns dos seus escritos, como poemas, ensaios e correspondência) foi o suficiente para ser considerado um clássico da literatura francesa.


Enredo 

A história é-nos contada por François Seurel que recorda quando, aos 15 anos, desenvolveu uma grande amizade com Augustin Meaulnes, dois anos mais velho.

François é filho do Sr. Seurel – um diretor de escola numa aldeia de Sologne, uma região rural de lagos e florestas – e inicia a sua narrativa quando Augustin Meaulnes se junta à sua turma, em Novembro de 1890.

O carisma de Augustin rapidamente faz com que todos os meninos da turma o idolatrem, queiram ser seus amigos e logo o passem a tratar por Grande Meaulnes.

Um dia, sob o pretexto de ir buscar uns visitantes à cidade, Meaulnes leva um cavalo e um carrinho da escola, e desaparece por três dias, sem qualquer explicação.
Quando regressa, cansado e atordoado, parece muito renitente a contar o que se passou nesses três dias de ausência.

No entanto, aos poucos, Meaulnes confia o seu segredo ao seu amigo François, revelando-lhe ter-se deparado, acidentalmente, com uma bela casa antiga – perdida no meio da floresta – onde relata ter ido a uma festa mágica, na qual decorriam os preparativos de um casamento, sendo nessa festa que Meaulnes conhece uma rapariga encantadora - Yvonne de Galais.

No entanto, antes da cerimónia, o casamento é cancelado por desistência da noiva, todos regressam aos seus lares e Meaulnes fica sozinho, sem saber do paradeiro de Yvonne.

Regressando à escola, Meaulnes tenta traçar um plano de forma a reencontrar o caminho para o domínio perdido, bem como a sua adorada Yvonne.



A minha opinião

O facto da história nos ser contada, não por Meaulnes mas por François, e com o desfasamento de alguns anos, envolve toda a historia numa certa nostalgia, como se visualizássemos os acontecimentos através de uma bruma.

Além disso, o próprio cenário campestre, repleto de árvores, sombras e casas envelhecidas, acentua o carácter místico desta história, parecendo, por vezes, que a realidade vivida se funde com o sonho ou a imaginação.

O final do livro deixa-nos com uma sensação agridoce, uma vez que é simultaneamente belo e triste.

Este livro tornou-se muito especial para mim, pela sensação de sonho que proporciona, pela escrita delicada, embora não necessariamente simples.

Além disso, foi para mim extremamente difícil arranjar uma edição (uma vez que, à data da sua aquisição, o livro se encontrava esgotado), e quando finalmente consegui este exemplar, da Relógio D’Água, qual não foi a minha surpresa ao perceber que se tratava de um exemplar novo, numa primeira edição de Abril de 1987… o mês e ano do meu nascimento!
Existe, atualmente, uma nova edição, da Alma dos Livros, publicada com o título O Tempo das Ilusões Perdidas, mas vou preferir manter comigo esta edição mais antiga.

Enfim, não sei que mais palavras usar para demonstrar o quanto gostei deste livro por isso recomendo apenas: leiam-no. Mas leiam-no conscientes que não é difícil perdermo-nos neste bosque de ilusões perdidas.

❤

sábado, 21 de maio de 2016

#014 | Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz

Autor: Afonso Cruz (Portugal)
Título Original: Vamos Comprar um Poeta
Editora: Editorial Caminho
Edição: 1ª Edição, Março 2016 (101 págs.)
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Hoje venho falar de uma das minhas mais recentes leituras: Vamos Comprar um Poeta de Afonso Cruz.

Apesar do tamanhinho, a pequenez deste livro fica-se pelo seu tamanho físico, uma vez que a narrativa, de pequena nada tem.

Este livro conta-nos então a história de uma sociedade imaginária (distópica, para quem gostar do conceito), onde o materialismo controla todos os aspectos das vidas dos seus habitantes.

Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com rigor e exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama.

‘… mas há estudos que confirmam a hipótese de haver benefício em depositar uns mililitros de saliva na maça do rosto de outra pessoa, por mais estranho e grotesco que isso nos possa parecer.’ (p.10)

Nesta sociedade imaginária a cultura é vista como um disparate e uma inutilidade. Não obstante estes atributos, é comum, nesta sociedade, as famílias terem artistas em vez de animais de estimação e é neste contexto que a protagonista desta história decide adquirir um poeta.
Um poeta não sai caro (excepto se usar óculos, esses são mais caros) nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – e, além disso, entretém-se facilmente com folhas brancas e canetas.

E é na relação desta jovem com o seu poeta que vamos percebendo a importância da poesia, da criatividade e da cultura nas nossas vidas.

Aos poucos, a protagonista da história começa a usar metáforas, a referir-se às coisas em valores aproximados, e a perceber que há mais na vida, além dos números e do rigor.

E é com base nesta premissa aparentemente simples, que Afonso Cruz constrói uma crítica à forma como a cultura é vista pela sociedade, complementando no posfácio a crítica feita ao longo da história, dando-nos uma visão mais concreta (curiosamente, em números) da importância da cultura.

Escusado será falar da escrita de Afonso Cruz que, como toda a gente sabe, é inspiradora, sensível e, tal como a poesia, é capaz de nos abrir uma janela por onde se vê o mar.
Francamente…

❤