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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

#029 | Sociopata: As minhas memórias / A minha história, de Patric Gagne

Autor: Patric Gagne (Estados Unidos da América)
Título Original: Sociopath: a memoir (2024)
Editora: Editorial Presença
Edição: 1ª Edição, Fevereiro 2025 (400 págs.)
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Todos temos os nossos segredos. Esqueletos no armário. Coisas, mais ou menos importantes, que guardamos só para nós.
Mas será que estaríamos dispostos a trazer os nossos segredos à luz do dia? Contar tudo, ao mais ínfimo detalhe? E se esse “segredo” implicasse revelar que somos… sociopatas?Foi o que Patric Gagne se propôs a fazer.

Sobre a autora

No site da própria autora, esta é apresentada como “escritora, ex-terapeuta e defensora de pessoas que sofrem de perturbações de personalidade sociopática, psicopática e antissocial”, referindo que, neste livro, “partilha a sua luta para compreender a sua própria sociopatia e lançar luz sobre esta perturbação mental frequentemente difamada e incompreendida”.

Patric formou-se na UCLA e, em seguida, matriculou-se no campus de Westwood do California Graduate Institute (CGI) – uma escola de pós-graduação especializada em psicologia, psicanálise e terapia conjugal e familiar – onde obteve o grau de Mestre em Psicologia.

Posteriormente, concluiu o Doutoramento em Psicologia Clínica pela Escola de Psicologia Profissional de Chicago. Na sua dissertação — “Seguidores de Fagin: Sociopatia Secundária e a sua Relação com a Ansiedade” — explorou a relação entre sociopatia e ansiedade, tornando-se este trabalho a base para as suas memórias.

Atualmente, vive com o marido – David – e os dois filhos e é membro da Sociedade para o Estudo Científico da Psicopatia, trabalhando para expandir a definição de psicopatia, com o objetivo de a incluir no estatuto de perturbação do espectro do autismo.

Resenha

Patric era ainda muito pequena quando começou a perceber que era diferente dos outros.
Sem saber exatamente porquê, sabia que alguma coisa não estava bem e que todos pareciam desconfortáveis na sua presença. Começou a desconfiar que a razão fosse apenas uma: ela não sentia as coisas como as outras crianças. Aliás, de forma geral, não sentia absolutamente nada. E não sentir nada começou a tornar-se insuportável.

É com base nesta premissa que Patric começa o seu relato, sustentada nas suas primeiras memórias, pelos 6 anos de idade.
O livro segue num arco biográfico, começando pela infância e juventude, onde Patric começa a perceber que é diferente, descreve a falta de emoção como uma pressão física insuportável, e narra os seus primeiros incidentes de comportamento "desviante", descrevendo a compulsão de cometer pequenos crimes, como uma libertação da apatia emocional que a sufocava.

Durante a sua adolescência e início de vida adulta, a sua conduta vai se tornando cada vez mais periclitante, sendo que a autora argumenta que os seus comportamentos de risco se assumiam como tentativas de gerar adrenalina, para preencher o vazio deixado pela falta de emoções. Para ela, o ato ilícito funcionava quase como uma válvula de escape para aliviar a tal “pressão física insuportável” gerada pela apatia. A autora detalha, também, o esforço necessário para mimetizar comportamentos e reações humanas “normais”, aprendido através da observação dos pares, transformando as suas interações sociais quase numa performance técnica.
A exceção acontece com David, o seu primeiro namorado – e atual marido – com o qual sempre se sentiu livre para ser ela mesma, apesar das várias dificuldades que a sua personalidade imprimiram ao relacionamento.

É durante uma aula de psicologia, na faculdade, que Patric finalmente entra em contacto com o conceito de sociopatia, reconhecendo-se na sua definição.
Patric lança-se então numa jornada de autodescoberta e reflexão, narrando a sua vida, os seus estudos e a suas relações, sob a perspetiva de uma sociopata.

Ao longo do texto, e tento por base as suas vivências e a sua pesquisa académica, a autora procura destacar a complexidade da condição sociopática e propõe uma diferenciação importante entre sociopatia e psicopatia, esclarecendo que são diagnósticos distintos e que, a não diferenciação entre eles acaba por dificultar o diagnóstico e tratamento específico para os diferentes transtornos de personalidade antissocial.

Gagne desafia o estigma de que todos os sociopatas são assassinos em série à espera de uma oportunidade, apresentando a sociopatia como um espectro, no qual muitos indivíduos se enquadram, vivendo “entre nós”, trabalhando, tendo famílias, apesar de processarem o mundo de forma diferente… mais fria e lógica.


Experiência de leitura

Confesso que, para mim, esta foi uma leitura difícil e arrastada. E eu explico porquê…
Narrar esta história em primeira pessoa seria, talvez, o elemento mais disruptivo e necessário da obra. Ao assumir a voz da narrativa, e sendo doutorada em psicologia, a autora tem a possibilidade de fundir o seu relato com a análise técnica, descrevendo os seus próprios sintomas com a precisão que um observador externo dificilmente alcançaria, dado habitar o fenómeno que estuda. No entanto, a autora começa a obra assumindo:

“Sou mentirosa. Roubo. Sou emocionalmente superficial. Sou quase imune aos remorsos e à culpa. Sou altamente manipuladora. Não quero saber o que as outras pessoas pensam. Não quero saber da moral. Alias, não quero saber, em geral. As regras não entram em linha de conta nas minhas decisões. Sou capaz de quase tudo” (p. 15)

Isto levanta a questão: esta narradora é confiável? Um sociopata é, por definição, um mestre da manipulação, tornando legitima a dúvida: estou a ler um relato fiel e a aprender sobre a sociopatia, ou estou a ser seduzida por uma narrativa cuidadosamente construída?

Além disso, no início do primeiro capítulo, a autora afirma:

“Porque há muita coisa da minha infância que é vaga. Lembro-me de algumas coisas com uma nitidez absoluta (…) Contudo, há outras coisas que não são tao claras.” (p. 23)

Começar a narrar a história desde tão nova e com tantos detalhes não é congruente com uma memória vaga. Desde as expressões faciais, ao tom de voz, ambientação… é tudo narrado com o mais ínfimo detalhe o que me remetia sempre para a ideia de estar a ler biografia romanceada (muito romanceada) e não um “relato cru” como tem sido apresentado.

Só quando interiorizei que estava a ler um romance e não uma biografia, lá pelo fim do primeiro terço do livro, é que a leitura começou a fluir mais um pouco.

Ainda assim, não achei um livro bom.
A escrita é simples, com momentos repetitivos, e com recurso recorrente a diálogos de forma a explanar o seu processo de pensamento. Seja as conversas com a terapeuta, com David ou com uma ou outra amiga, os diálogos são usados de forma a apresentar o passo a passo do seu processo de autodescoberta e diagnóstico. O método funciona, mas acaba por tornar-se repetitivo.
Além disso, o facto de a autora recorrer várias vezes à palavra “mesmo” (estava mesmo contente, estava mesmo a sentir aquilo…) parece estar a reforçar a mentira. Sabem quando os miúdos dizem que alguma coisa é mesmo verdade? É isso.

Existe ainda a questão da romantização da sociopatia, mostrando uma perspetiva cool do “não se importar com o que os outros pensam” sendo que, além disso, a autora se refere aos seus delitos como “comportamentos poucos ortodoxos” ou “maus comportamentos” quando estamos a falar de roubo ou invasão de propriedade, por exemplo.  

Para terminar, o prólogo com a imagem clássica de “último episódio de novela” foi perfeito para terminar da forma mais cliché possível.

Devo salvaguardar que sim, a explanação sobre a sociopatia é bem sustentada, são referidas diversas fontes e, para quem tiver particular interesse na temática, pode ser, efetivamente, uma boa leitura. Ainda assim, para mim, funcionou como um romance médio.